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Como capturar a essência de um artista que transita por tantas linguagens sem se deixar fixar? Tadeu Jungle, aos 65 anos, é uma figura difícil de se definir. Diretor de cinema, poeta, fotógrafo, artista visual e um dos pioneiros da videoarte no Brasil, ele deixou sua marca na Zipper Galeria em 2020, quando inaugurou o projeto Poesia de Fachada com um de seus versos mais famosos. Essa iniciativa, que convida artistas a ocupar parte da fachada externa da galeria, encontrou em Jungle um primeiro participante à altura: alguém que sempre exerceu o potencial da palavra e da imagem para provocar reflexões no público transeunte.
Atualmente em cartaz no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, a exposição retrospectiva “TUDO PODE (perder-se)” dá ao público a oportunidade de conhecer um panorama da produção plural de Tadeu Jungle. Vamos revisitar alguns de seus principais projetos e compreender mais sobre sua relação com a palavra – escrita, falada, projetada e impressa.
Conteúdo do artigo:
Quem é Tadeu Jungle?
Tadeu Jungle ocupando a fachada da Zipper Galeria com a obra “Você Está Aqui” em 2020.
Herdeiro da poesia concreta, Tadeu Jungle construiu ao longo de 45 anos uma carreira bastante experimental e diversa. Nascido em 1956, em São Paulo, uma de suas primeiras ações artísticas se deu em poemas-pichações nos muros da cidade entre 1978 e 1979, como é o caso dos trocadilhos “Ora H” e “ÉDIFICIL”. A multiplicidade de sua produção também conquistou espaço em revistas e plataformas digitais, que publicaram seus poemas na década de 1980, além de integrar o movimento de arte postal, incentivado pelo professor-curador Walter Zanini.
Tadeu Jungle em foto de Fernando Laszlo, tirada em 2025, Baseada na foto de Jean Cocteau (1889-1963) por Philippe Hausman (1906-1979), em 1949.
Em 1983, conquistou maior popularidade como apresentador do programa Fábrica do Som, exibido pela TV Cultura. Gravado ao vivo no auditório do Sesc Pompeia, o programa era um laboratório da música brasileira emergente, que abria espaço para bandas que, anos depois, se tornaram ícones do rock nacional, como Titãs, Barão Vermelho e Ultraje a Rigor.
No mesmo ano, na área da videoarte, o artista marcou o setor brasileiro ao lançar o primeiro vídeo da chamada Trilogia da Linguagem: “FRAU”. O documentário experimental acompanha os cineastas Neville D’Almeida e Júlio Bressane no XI Festival de Cinema Brasileiro de Gramado e debocha com muita ironia do evento. O roteiro culmina no momento em que o diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa recebe, de forma relutante, o prêmio pelo longa O Rei da Vela (1982). Diante da plateia dividida entre vaias e aplausos, sua postura irreverente escancara o contraste entre a estrutura formal do festival e a essência provocativa de sua obra teatral e cinematográfica. Premiado no VideoBrasil e no Fest Rio em 1984, o vídeo é um exemplo da irreverência de Jungle e seu interesse em explorar as interseções entre linguagem, mídia e poder.
Inauguração do projeto Poesia de Fachada na Zipper Galeria
Um de seus trabalhos mais conhecidos é “Você Está Aqui”, criado originalmente em 1997, que se desdobrou ao longo dos anos em diferentes formatos, sempre questionando a presença do espectador no mundo. A inspiração para a obra remonta a 1981, quando, ao desembarcar em uma estação de metrô europeia, o artista se viu desorientado diante de um mapa que não indicava sua localização, o clássico marcador – “você está aqui”.
O primeiro formato do trabalho se deu então em um adesivo. Pequeno, anônimo e replicável, ele poderia ser colado em qualquer lugar, para fazer de qualquer espaço um ponto de reflexão existencialista. A frase, inclusive, foi traduzida para o inglês e espalhada pelo mundo. O enunciado reflete sobre identidade, pertencimento e a efemeridade da experiência humana, e sugere que a existência só faz sentido quando reconhecemos nosso lugar no tempo e no espaço. Afinal, se não sabemos onde estamos – fisica e subjetivamente –, como podemos saber para onde ir?
Em 2020, a Zipper Galeria inaugurou o projeto de ocupação da fachada de seu espaço com poemas visuais, convidando o artista Tadeu Jungle e seu trabalho “Você Está Aqui” para a estreia. Na ocasião, a obra tomou, simultaneamente, a empena de 555m² do Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP), também na cidade de São Paulo, sendo o maior poema visual impresso já produzido no Brasil.
“Você Está Aqui” no MAC, em São Paulo, em 2020. Foto: Raul Cariello
“TUDO PODE (perder-se)” no Centro Cultural FIESP e na Zipper Galeria
Agora, com uma retrospectiva na FIESP, a multiplicidade da produção de Jungle se evidencia ainda mais. Com curadoria de Daniel Rangel, a mostra reúne desde suas primeiras experimentações com videoarte até instalações inéditas, passando por suportes diversos que dialogam com as artes visuais e a comunicação de massa, incluindo “Você está aqui” como uma das âncoras da exposição. O que se vê é um artista que, ao longo de quatro décadas e meia, fez sua poética atravessar tempos, mídias e espaços.
Tadeu Jungle, “TUDO PODE”, performance urbana 2004.
Depois de cinco anos, Tadeu Jungle volta a estampar a entrada da Zipper, trazendo para sua fachada a frase que dá nome à exposição do centro cultural: “Tudo pode” em letras garrafais, seguido de “perder-se”, bem miúdo na composição. A quebra visual e semântica da máxima subverte os conceitos meritocráticos da ideia de “um mundo de possibilidades”.
A nova edição da Poesia de Fachada estará em exibição nas próximas semanas na Zipper Galeria, localizada na R. Estados Unidos, 1494, Jardim América, em São Paulo.
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