Você chegou ao seu destino

Felipe Cama

11/Nov/2017 – 16/Dez/2017

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Press Release

A nova série de trabalhos de Felipe Cama foge do suporte tradicional da pintura – telas únicas, quadrangulares ou retangulares – para formar mosaicos cartográficos criados a partir do método próprio do artista: a investigação sobre os processos de produção, distribuição e consumo de imagens e a representação digital da vida cotidiana. Os trabalhos estão reunidos em “Você chegou ao seu destino”, primeira individual do artista na Zipper, que inaugura no dia 11 de novembro. A abertura da exposição acontece durante o Art Weekend São Paulo, um roteiro artístico em que as galerias da cidade funcionam em horário estendido e oferecem programação especial.


As pinturas põem em confronto – ou em diálogo – as concepções de abstração e figuração na arte. “Os trabalhos apagam a fronteira que haveria entre o abstrato e o figurativo. Eles são ambos ao mesmo tempo”, reflete o artista. Paralelamente, refletem sobre os territórios mapeados pelas novas tecnologias e o controle que grandes corporações de tecnologia exercem sobre cada um de nós a partir do smartphone e o GPS, ferramentas hoje banalizadas.


Com um celular à mão, Felipe registrou durante anos seu deslocamento diário em serviços de geoposicionamento online – que monitoram em tempo real a trajetória realizada pelo usuário; depois, o artista verificou o traçado resultante pelo deslocamento em um dia, que foi tomado como ponto de partida para as telas. “Grande empresas de tecnologias monitoram nosso cotidiano, onde vamos, o que vemos, o que consumimos, e oferecem os dados para que outras empresas formulem suas estratégias comerciais. Os trabalhos refletem sobre privacidade e liberdade”, afirma o artista.


Sua individual levanta, ainda, questões ligadas à fragmentação na era digital. As pinturas não são compostas como peças únicas. São chassis individuais que, montados como peças, formam a totalidade do trabalho. Com texto crítico de Giselle Beiguelman, a mostra fica em cartaz até 16 de dezembro.


Sobre o artista


Felipe Cama (Porto Alegre, 1970, vive em São Paulo) examina os processos de produção, distribuição e consumo de imagens no mundo contemporâneo. Para tanto, apropria-se de representações em diversos meios – desde imagens digitais que circulam pela internet, fotografias publicitárias, fotos encontradas em álbuns de viagem virtuais e reproduções em livros de História da Arte – para compor obras em suportes como a pintura, a fotografia, a colagem e o vídeo. Seu trabalho consta em importantes coleções institucionais: Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Centro Cultural São Paulo, Museu de Arte de Ribeirão Preto, Instituto Figueiredo Ferraz, Museu de Arte de Porto Alegre, Centro Cultural Carpe Diem Arte e Pesquisa (Lisboa) e Universidade de Arte de Musashino (Tóquio).


Texto crítico: Giselle Beiguelman


Giselle Beiguelman investiga a estética da memória e desenvolve projetos de intervenções artísticas no espaço público e com mídia digital. É professora associada do Departamento de Arquitetura Histórica e Estética do Projeto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Universidade de São Paulo (FAU-USP). Beiguelman é o autora de vários livros e artigos sobre o nomadismo contemporâneo e as práticas da cultura digital. Ela foi chefe do Curso de Design da FAU-USP de 2013 a 2015, onde tem ensinado desde 2011. Entre seus projetos recentes estão “Memories of Amnesia” (2015), “quão pesada é uma nuvem?” (2016) e a curadoria da “Arquinterface: a cidade expandida pelas redes”. Ela é membro do Laboratório de OUTROS Urbanismos (FAU-USP) e do Laboratório Interdisciplinar de Informação de Imagem - Humboldt-Universität zu Berlin. Suas obras de arte estão em coleções de museus do Brasil e no exterior, como a ZKM (Alemanha), a coleção latino-americana da Universidade de Essex, MAC-USP e MAR (Museu de Arte do Rio de Janeiro), entre outros.

Texto crítico

“Não é o destino que conta mas o caminho”, escreveu Mia Couto em Terra Sonâmbula. Mas na terra em que vivem os habitantes do Google Maps, essa equação não vale. Chegar antes é o que importa. É preciso encurtar rotas, economizar tempo, cumprir rituais de eficiência. Não há mais espaço para a deriva. Todos os roteiros devem estar previstos no Waze, independentemente do fato de conhecermos, ou não, o trajeto que será percorrido. O número de informações sobre nossos percursos, nossos horários e nossos hábitos, que ficará registrado nos bancos de dados dessas empresas, não pesa na consciência de ninguém. Basta ignorar e chegar ao seu destino. Da forma mais rápida. Se possível, sem ver, nem pensar em nada.


Teleguiadas, multidões de motoristas obedecem aos itinerários programados. Qualquer erro no sistema pode levar a uma pane colossal no trânsito. Mas o fato é que não se duvida da razão do GPS. Vozes metálicas, monocórdicas, esvaziam o deslocamento pela paisagem urbana de qualquer emoção. Vire à direita. Dirija 400 metros na direção Noroeste. Curva suave à esquerda. Todas as cidades parecem ser uma só... Como se habitássemos o delírio de um personagem de Sobre o Rigor na Ciência de Jorge Luis Borges. Nesse conto, conhecemos um Império que se esmerou a tal ponto na arte da cartografia que chegou a um mapa que tinha o tamanho do próprio Império. Coincidia com ele ponto por ponto, em uma escala de 1 para 1. Era, no entanto, inútil. Ao abolir a representação, abolia também a imaginação.


É dessa demanda por um mapa de caminhos imaginados que Felipe Cama fala na exposição Você chegou ao seu destino. O título, retirado da mensagem final dos serviços de mapas para celular, é um contraponto irônico à série de pinturas que ele apresenta. Conjunto de nove mapas que registram seus percursos, são diários dos quais todos os dados foram abolidos. Ficaram apenas algumas poucas informações visuais: as formas, descritas pelos contornos dos itinerários, e as cores que ele adiciona, de acordo com critérios pessoais.


O resultado são mapas de lugar nenhum, um “Google Unmapped”. Como se transitássemos, do rastro ao traço, do sulco à sutura, da figuração à abstração. Não por acaso cada um dos mapas é nomeado com a data de sua produção. O tempo aqui se sobrepõe ao percurso. Extratos de uma série iniciada em 2011, são quase-frames de um dia a dia colocado em câmera lenta, contrariando a lógica de um mundo de aceleração permanente. Neles estão espacializados elementos que fogem do Big Data, das grandes massas de padrões.


Valem aí, nos mapas de Felipe Cama, as aberrações imperceptíveis e os desvios que desestabilizam o universo dos roteiros programados. Rompe-se a organização figurativa original das linhas, permitindo outras constelações simbólicas. Subverte-se o mapa como instrumento de localização e agente de “mineração” de comportamentos, suspendendo a coleta de dados sobre para onde vamos e quando. Sem decalcar um mundo pré-existente, o mapa ganha espessura e volume. Sai da tela e avança sobre a vida. Com todo seu acervo de variáveis indefiníveis e instáveis.


Giselle Beiguelman

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