Trailer

Katia Maciel

10/Abr/2018 – 12/Mai/2018

Voltar a lista de exposições

Press Release

Artista e poetisa, reconhecida pela realização de vídeos e instalações, Katia Maciel experimenta, em sua segunda exposição individual na Zipper, a construção de uma série de objetos que se definem a partir da relação entre palavra, superfícies refletoras e o espectador. A artista revisita a própria produção ao se apropriar de títulos de trabalhos anteriores e propor, em estruturas de espelho e vidro, uma montagem de fragmentos da sua obra – daí o título da mostra, “Trailer”. Com curadoria de Ismar Tirelli Neto, a mostra inaugura no dia 10 de abril, durante o Gallery Night no bairro dos Jardins, roteiro de galerias que antecede a abertura da SP-Arte.


“Duchamp considerava o título de suas obras como uma tinta invisível. Nesta exposição, coloco o título em primeiro plano e a palavra e seu uso se constituem como objeto poético. Títulos antes referidos ao meu trabalho em vídeo não são retirados do seu campo semântico, o que há é o desdobramento da obra como imagem de si mesma, deslocada da situação de projeção para a de pura reflexão”, afirma a artista.


A sequência de objetos-poema usa como suporte o espelho e o vidro, e, portanto, o reflexo do observador é incorporado ao trabalho. Como na obra “Círculo Vicioso”, em que as duas palavras, impressas em torno do objeto circular no nível do chão, giram a partir do gesto do espectador, que se vê aprisionado na imagem em movimento. Ou em “Mesmo Assim, Assim Mesmo”, em que as palavras podem ser combinadas pela ação do espectador a partir do deslocamento da palavra em primeiro plano no trabalho.


A exposição apresenta, ainda, dois vídeos: “Repetir é esquecer o esquecimento” e o trabalho que dá nome à individual, “Trailer”, sucessão acelerada do primeiro frame de cada vídeo ou filme produzido pela artista. “Após anos dedicados a demonstrar – com calma característica – a instabilidade fundamental das imagens à nossa volta, Katia Maciel, ela própria arquiteta de imagens, propõe-se agora desestabilizar seu próprio trabalho, friccionando-o contra um campo até então inexplorado”, escreve o curador da exposição.


“Trailer” fica em cartaz até 12 de maio.


Sobre a artista


Katia Maciel (Rio de Janeiro, Brasil 1963) é artista, poeta e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua obra investiga o imaginário próprio das imagens em relações com a paisagem, os objetos e a palavra. Em seus vídeos e instalações, a influência do cinema é flagrante na escala, na poética do movimento, na inclusão do espectador. Seus trabalhos estiveram em exposições no Brasil, na Colômbia, no Equador, no Chile, na Argentina, no México, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França, na Espanha, em Portugal, na Alemanha, na Lituânia, na Suécia e na China. Recebeu, entre outros, os prêmios: Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio (2013), Prêmio da Caixa Cultural Brasília (2011), Funarte de Estímulo à Criação Artística em Artes Visuais (2010), Rumos Itaucultural (2009), Prêmio Sérgio Motta (2005), Petrobrás Mídias digitais (2003), Transmídia Itaúcultural (2002), Artes Visuais Rioarte (2000). As obras da artista encontram-se nas coleções Gilberto Chateaubriand, Museu de Arte do Rio, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Oi Futuro do Rio de Janeiro e Maison Européenne de la Photographie, entre outras.


Sobre o curador


Ismar Tirelli Neto (Rio de Janeiro, Brasil, 1985) é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Já teve textos publicados em O Globo, Folha de São Paulo, Suplemento Pernambuco, Modo de Usar & Co., Escamandro, Blog do Instituto Moreira Salles, Revista Pessoa, Neue Rundschau (Alemanha), Relâmpago (Portugal), Jacket2 (EUA), entre outros. Vive atualmente em Curitiba. É autor dos livros “synchronoscopio”, “Ramerrão” e “Os Ilhados”, todos lançados pela editora 7Letras.

Texto crítico

Na?o Fosse A Palavra


Em 2001, a artista visual, poeta e acade?mica Katia Maciel roda o documenta?rio Neoconcretos. Trata-se de um apanhado de depoimentos de artistas pla?sticos que foram atuantes no a?mbito daquela disside?ncia, e um dos fios-condutores discursivos mais evidentes nas falas e? justamente a oposic?a?o a? ortodoxia formal, ao geometrismo implaca?vel, a? matema?tica pura proposta pelo “estado-maior” do Concretismo.


A primeira entrevistada, Lygia Pape, fala-nos em fluxo, o que imediatamente nos sugere tra?nsitos desimpedidos e orga?nicos. Uma menc?a?o passageira a Hera?clito e retoma-se o problema do indivi?duo-artista como figurac?a?o privilegiada de impermane?ncia, liberdade, na?o-fixidez. No limite, somos instados a pensar quem e? quem nesta meta?fora. O rio impara?vel, passagem e acu?mulo, corpo que na?o se dete?m na definitude, que na?o e? detido pela definitude, que se organiza apenas circunstancialmente e por isso mesmo materializa a um so? tempo o proviso?rio e o elemental – e? o artista? Ou sera? a pro?pria pra?tica arti?stica, tomada de forma mais esquema?tica?


Corre o rio, vemos o poeta e artista visual Osmar Dillon. KM o enquadra diante de um trabalho de autoria do pro?prio chamado Chuva. Portanto, o fundo que nos “avanc?a” a figura de Dillon e? composto por uma se?rie de “ripas de cristal” espelhadas nas quais o artista estampou as letras C H U V A.


Ao falar sobre este trabalho, Dillon faz dois comenta?rios extremamente oportunos, que retomamos aqui. O primeiro e? a afirmac?a?o de que a palavra- chuva “ativa” o objeto. O segundo e? a afirmac?a?o de que o objeto “seria frio se na?o fosse a palavra”. Com estes dois apartes, esta? posto o problema do objeto poe?tico, de uma poe?tica visual. A palavra e? encarada aqui como um instrumento vitalizador – ao “acionar” um objeto ela o transforma em seu oposto, “na?o-objeto”, poesia; esta ause?ncia de func?a?o uni?voca o deposita no mundo dos vivos, terra fremente de sugesta?o e possibilidade. Vivificac?a?o por meio da palavra; o objeto torna-se ca?lido, receptivo, sem abandonar certo rigor de apresentac?a?o. O discurso de Dillon nos parece exemplar precisamente por aliar meticulosidade e apuro formal a um desejo de comunicac?a?o e interca?mbio de sentidos poe?ticos – entre os depoentes, Dillon na?o se acha so? ao discorrer sobre a “participac?a?o” do fruidor como sendo capital para a existe?ncia da obra de arte.


*
Mas pensamos ainda em rios. A imaginac?a?o do que se move, do que


acumula dados vitais, do que respira, do que se reorganiza diante de nossos olhos permanecendo de algum modo fiel a si pro?prio. Tudo isto sempre esteve presente no trabalho arti?stico de KM. Agora, decorridos vinte anos desde o ini?cio de suas atividades, tomamos uma fotografia do fluxo, buscamos intuir


para onde se encaminha.


Nesta curva do trabalho de KM, comec?amos a ver uma retomada em objeto de motivos que antes se desdobravam mormente no a?mbito do cinema e da videoinstalac?a?o. Sempre preocupada em desestabilizar tanto a imagem quanto as situac?o?es convencionais de espectac?a?o, KM – para usar as palavras de A. Berne-Joffroy em artigo de 1955 sobre os objetos de Fautrier – e? uma artista que tem “a sensac?a?o exata de que as coisas poderiam ser diferentes” e que nos provoca continuamente com vislumbres de movimento, de uma vida escondida na estase, acossada no imo?vel, a? espera do menor sinal, da menor intervenc?a?o, para comec?ar, para proliferar. Aqui, esta vida encontra um outro esconderijo, outra ocultac?a?o para po?r-se a? espreita. A forma reformula, rejuvenesce. Vemo-nos agora no caminho do objeto; no caminho do objeto espelhado; no caminho do objeto ativado por palavras. O que pode significar, neste momento, uma opc?a?o pelo poema visual em detrimento, por exemplo, de uma permane?ncia inquestionada no transcinematogra?fico? Coisa que nos fala fluvialmente – trata-se de uma a?gua que encontra seus caminhos, que forceja, que na?o apenas assunta a vitalidade como da? mostras incontestes da mesma ao assumir frontalmente suas pro?prias transmutac?o?es. Neste caso, a opc?a?o pelo objeto ja? e?, de si, substa?ncia de pensamento, podendo bem significar uma deriva para o so?lido, para o cada vez mais ta?til, para o cada vez mais claro e abarca?vel. O que, afinal, acontece nesta transformac?a?o da projec?a?o mo?vel em quadro fixo, do filme em objeto, em poema visual? Houve crescimento ou reduc?a?o do potencial interativo? Num caudal que perpassa o cinema, a arte instalativa, a poesia e a fotografia, o que significa este novo tributa?rio?


Repropor, mas e? a primeira vez. Repetir, mas inaugurar. Recuar, mas avanc?ar. Habitemos isto: a dificuldade de encontrar uma linguagem do retorno e do avanc?o, do rio e da mate?ria que corre com ele. Nos objetos que compo?em esta exposic?a?o encontraremos reformulac?o?es e reviso?es de trabalhos ja? ce?lebres da artista. Sa?o como precipitac?o?es, cristalizac?o?es novas. KM coloca-se para fora de seu pro?prio trabalho por alguns instantes para tornar-se executante de si. Ha? uma espe?cie de partitura, sim, mas ela foi escrita para abrir-se a este tipo de reinterpretac?a?o. Ela foi composta para a abertura. Ei-la. Utilizando-se da liberdade com que sempre tratou de seu trabalho (na?o apenas a liberdade de ver, mas tambe?m, e principalmente, a aterradora liberdade do que e? visto), KM o reforma, ensejando assim novas e imprevistas relac?o?es no contexto de um reperto?rio tema?tico absolutamente coerente (o que e? a a?gua nesta meta?fora?). Apo?s anos dedicados a demonstrar – com calma caracteri?stica – a instabilidade fundamental das imagens a? nossa volta, KM, ela pro?pria arquiteta de imagens, propo?e-se agora desestabilizar seu pro?prio trabalho, friccionando-o contra um campo ate? enta?o inexplorado.


Ismar Tirelli Neto - Curadoria


 

Catálogo