Renascimento

Adriana Duque

06/Ago/2019 – 31/Ago/2019

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Press Release

Após cinco anos, a colombiana Adriana Duque volta a expor no Brasil, com a individual “Renascimento”, em cartaz na Zipper a partir do dia 6 de agosto. Em sua última exposição solo no país – “Íconos”, em 2014, também na galeria – a artista apresentou trabalhos que estabeleciam relações a pintura holandesa do período Barroco. Agora, as fotografias da artista dialogam com a pintura retratual renascentista, a partir das características típicas do movimento cultural surgido entre os séculos XIV e XVI na Europa. A curadoria da exposição é de Eder Chiodetto.


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O trabalho de Adriana Duque incita o embate entre a fotografia e a pintura. A artista utiliza a fotografia – e os recursos contemporâneos dedicados a este suporte – para realizar aproximações e releituras da pintura de diversos momentos da história da arte. No caso do Renascimento, a artista faz uma reflexão sobre a individualidade, uma noção que se encontra na base da passagem da visão teocêntrica da Idade Média para o humanismo. A explosão de retratos que se viu surgir no Renascimento diz respeito ao crescente interesse pela individualidade no período, em contraposição à representação do divino durante a Idade Média.


Longe, porém, de procurar retratar representações fiéis da realidade, Adriana Duque questiona a própria noção de retrato e seu papel no mundo contemporâneo: em “Renascimento”, as fotografias se constituem como montagens de elementos a partir de técnicas digitais. “Cada um dos trabalhos coloca a definição do retrato em um campo em movimento, porque não são imagens obtidas pela simples gravação da realidade do sujeito retratado. A totalidade de cada obra é composta parte por parte, de modo que cada imagem resultante corresponde, na realidade, a fragmentos dispersos e remontados meticulosamente na busca de uma imagem ideal, aquela que só habita a mente do artista”, afirma Adriana Duque.


A individual “Renascimento” fica em cartaz até 31 de agosto.


Sobre a artista


O trabalho de Adriana Duque (Manizales, Colômbia, 1968) incita o embate entre a fotografia e a pintura. A artista utiliza a fotografia – e os recursos contemporâneos dedicados a este suporte – para realizar aproximações e releituras da pintura. Sua pesquisa têm se dedicado a retratar crianças rodeadas por uma atmosfera austera, em cenas minuciosamente construídas.Ela tem trabalhos em coleções como Instituto Figueiredo Ferraz de Ribeirão Preto; Museo de Arte Moderno de Medellín, Colombia; e Museu de Arte do Rio (MAR-RJ). Entre suas principais exposições individuais destacam-se: “Iconos”, Zipper Galeria, 2014; "Anthology of an Obsession", Witzenhausen Gallery, Amsterdam, 2014; "The Other Side", Galería el Museo, Bogotá, 2014; "Infantes", Galeria Horrach Moya, Palma de Maiorca, 2010; "Baroque Children", Museo Iglesia Santa Clara, Bogotá, 2009; "De Cuento en Cuento", Museo de Arte Moderno de Medellín, Medelín, 2005. Participou de mostras coletivas em cidades como Paris, Bogotá, e Madri, entre elas "Photoquai - Biennale de Photographie", no Musée du Quai Branly, Paris, em 2013; "Desnudando a Eva". Instituto Cervantes, Madri, 2012; "Topologías: Materias en Tránsito", Casa de la Moneda, Bogota, 2006.


Sobre o curador


Eder Chiodetto é curador especializado em fotografia, com mais de 70 exposições realizadas nos últimos 10 anos no Brasil e no exterior. Mestre em Comunicação e Artes pela ECA/USP, jornalista, fotógrafo, curador independente e autor dos livros O Lugar do Escritor (Cosac Naify), Geração 00: A Nova Fotografia Brasileira (Edições Sesc), Curadoria em Fotografia: da pesquisa à exposição (Ateliê Fotô/Funarte), entre vários outros. Nos últimos anos tem realizado a organização e edição de livros de importantes fotógrafos como Luiz Braga, German Lorca, Criatiano Mascaro, Araquém Alcântara e Ana Nitzan, entre outros. É curador do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP desde 2006.

Texto crítico

No início, a ausência de luz sintetizava o ocaso dos sonhos, a crença desmedida no oculto e nas forças inomináveis. Quando a ausência se converteu em latência, da escuridão absoluta do plano de fundo, paulatinamente, luzes vertidas em tintas matizaram o renascimento de um novo plano do qual surgiu a face gloriosa do homem. A arte ressurgiu com as pulsões do realismo, da simetria e da beleza. Eis que o homem renasceu com a imagem e semelhança dos contornos que a arte clássica greco-romana havia lhe atribuído.


Seis séculos após essas mudanças de parâmetro no mundo e nas artes, a artista colombiana Adriana Duque iniciou-se na prática da pintura. A obsessão pelo realismo e pela busca de uma forma de beleza idealizada a levaram a atravessar os tempos históricos para ter a pintura renascentista como fonte de prazer estético e pesquisa. Saltar da pintura para a fotografia foi um passo natural para quem desejava criar seres que saltam do quadro para estabelecer uma relação vívida com o mundo.


Ao aportar na fotografia, porém, Duque manteve nas suas estratégias artísticas o domínio pleno das técnicas da pintura, a tal ponto que sua obra hoje tornou-se o ponto de convergência no qual ambas linguagens surgem num improvável e hipnotizante equilíbrio. As obras inéditas presentes em “Renascimento”, que a Zipper apresenta agora, acrescentam um novo dado em relação a mostra “Iconos”, realizada aqui em 2014: na busca incansável da expressão mais inquietante e perfeita, agora Duque cria suas “princesas” a partir da colagem de partes de várias faces. Esses seres sincréticos que de forma inquietante nos olham em profundidade existem em plenitude apenas no universo de fabulações da artista. Criadora e criatura têm suas identidades cada vez mais difusas.


Para além dessas questões formais bem balizadas na obra de Duque, que conseguem criar uma atmosfera atordoante de proximidade entre nós e suas “princesas”, são minuciosamente construídos símbolos enigmáticos que nos convocam à reflexão. Por que essas meninas, princesas, infantas, renascem em 2019, vindas de tempos imemoriais, com esse olhar inquiridor como quem nos estranha e indaga: – Quem és tu? E por que parece que elas respondem em parte essa questão ao portarem fones de ouvido – símbolo de um isolamento voluntário – como se fossem as coroas de outrora? O que renasce em nós quando essa estética renascentista carregada de adornos e ex-votos, vertida de contemporaneidade, nos afronta?


Tais questões contribuem para manter a magnética obra de Duque em constante movimento. Cada símbolo construído pela artista, minuciosamente organizado na simetria rigorosa de suas criações, nos ajuda a atravessar temporalidades, a desconstruir a historicidade e sua cronologia para nos conduzir à essência do homem diante de um espelho que o espia e o indaga: – Quem és tu, quem somos nós? E, assim, renascemos a cada novo lampejo desse olhar.


Eder Chiodetto

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