O Absurdo e a Graça

Flávia Junqueira

12/Out/2019 – 16/Nov/2019

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Press Release

Em “O Absurdo e a Graça”, a artista Flávia Junqueira leva a fotografia encenada para a sua fonte mais primordial: o espaço de espetáculo, encenação e contemplação. Terceira individual da artista na Zipper Galeria, a exposição reúne trabalhos realizados a partir da apropriação pela artista de exemplares arquitetônicos do patrimônio histórico nacional – de teatros representativos da Belle Époque brasileira, do final do século 19, à arquitetura modernista do Pavilhão da Bienal, de meados do século 20 – nos quais ela constrói cenários ficcionais permeados por luxo e suntuosidade, ainda que de maneira irônica. Com texto crítico assinado pelo escritor Julián Fuks, a mostra inaugura no dia 12 de outubro, às 12h.


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Elemento presente em todos os trabalhos, o balão é o grande personagem da série fotográfica, encarnando diversos papeis: como elemento lúdico, cria a atmosfera de regozijo própria do universo visual da infância, que permeia toda a produção de Flávia Junqueira; como metáfora da decadência, assume o papel de espetáculo perene, apenas retido pelo instante fotográfico, uma vez que a passagem do tempo torná-lo-á obsoleto, murcho, abandonado; ora os balões ocupam o lugar dos espectadores, ora, a posição da artista, em um jogo de deslocamentos; outras vezes, assumem a simbologia criadora das narrativas fantásticas, que se constituem em peças-chave nos espaços ocupados pela artista.


E, se os balões aparecem como metáforas, eles o fazem em monumentos propriamente concebidos para os atos de encenar e contemplar. A arquitetura da representação, símbolo de diversos contextos históricos brasileiros, passa a ser o ateliê da artista: “Teatro João Caetano”, em Niterói, construído em 1842; “Teatro da Paz”, Belém do Pará, de 1878; “Teatro Amazonas”, em Manaus, 1886; Cristo Redentor, Rio de Janeiro, 1922; Pavilhão Ciccillo Matarazzo, São Paulo, 1957. “Todos estes espaços são cenários compostos por inúmeras camadas histórias, do ciclo da borracha à industrialização e urbanização do país. Meu trabalho aplica mais uma dessas camadas nos monumentos”, afirma a Flávia Junqueira.


Para a abertura da individual, no dia 12 de outubro, ela planeja criar a ambientação mágica e fantástica de seus trabalhos no salão principal da galeria. “O Absurdo e a Graça” fica em cartaz até 16 de novembro.


Sobre a artista


Flavia Junqueira (São Paulo, Brasil, 1985) lida principalmente com fotografia. O universo visual da infância e a construção de um imaginário sobre este período permeiam a obra da artista desde o início de sua produção. Seus trabalhos constam em acervos como MAM-SP, MIS-SP, MABFAAP, Museu do Itamaraty, RedBull Station, World Bank e Instituto Figueiredo Ferraz. Doutoranda pelo Instituto de Arte da Universidade Estadual de Campinas- UNICAMP, mestre em Poéticas Visuais pela Universidade de São Paulo e Bacharel em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado, a artista cursa também a pós-graduação em fotografia na FAAP. Entre os principais projetos e exposições que participou destacam-se: “Culture and Conflict: IZOLYATSIA in Exile”, Palais de Tokyo (Paris, 2014), “The World Bank Art Program”, Kaunas Photo Festival, 2010; “Tomorrow I will be born again”, Cité Dês Arts, 2011; “Subjetivo Feminino: una Mirada Latino Americana”, do projeto Photo España (Instituto Cervantes São Paulo, 2009), "Projeto para Finais Felizes", Temporada de Projetos do Paço das Artes (São Paulo, 2013). Prêmio Energias na Arte do Instituto Tomie Otahke, 2009; "Gorlovka", Programa Itinerâncias "Nova Fotografia" (2015); “Tentativas e Apostas – Notas de um Processo”, exposição Red Bull House of Art- Residência Artística São Paulo-SP, 2010. Mostra Coletiva do Atêlie aberto#5. Programa de residência da Casa Tomada, 2011, entre outros.


Texto crítico: Julián Fuks


Julián Fuks (São Paulo, 1981) é escritor e crítico literário. É autor de "A resistência", livro ganhador dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É autor também de Procura do romance e Histórias de literatura e cegueira. Livros e contos seus já foram traduzidos para nove línguas e publicados em diversos países.

Texto crítico

Assombrar-se diante do absurdo, abrandar-se na presença da graça. Talvez se possa descrever assim a experiência forte de ver Flávia Junqueira em ato, compondo com excêntrico rigor suas imagens insólitas. Perdido na profusão de cores, com o olhar ofuscado pela explosão de brilhos, o espectador se deixa provocar pelo despropósito. A artista não se abala, não se perde jamais: poeta austera a deslocar palavras em seus versos, move balões sem nunca se cansar. Batalha centímetro a centímetro o lugar exato de cada objeto, o ponto preciso do espaço que ninguém mais descobrirá. A esta altura o espectador pode até rir, tomado pelo disparate, já se perguntando se a arte não estará no movimento incessante, se aquilo que vê não será uma performance. E é nesse preciso instante que uma graça se faz outra graça, e uma arte se faz outra arte.


É quando o obturador se fecha, e quando a foto é revelada, que se desvela o sentido de tantos incansáveis esforços. Estamos subitamente deslocados ao espaço movediço de outras artes, ao museu, ao monumento, aos velhos teatros. Estamos imersos no longínquo cenário de uma cultura nacional, sentindo o peso da história, ouvindo o silêncio do passado. Nenhum espetáculo parece iminente agora, nenhum ator pisará no palco, o público ausente não terá a quem oferecer o seu aplauso. E, no entanto, lá estão os incontornáveis balões, a transtornar o espaço, a nos comover com sua presença enigmática. A leveza a contrariar o peso, a cor a cobrir o silêncio, a delicadeza a se opor à gravidade. Os balões são os artistas a tomar o palco, tenha o teatro a forma que tiver, seja ele a rua, seja ele o céu. Ou será o contrário? Os balões são os espectadores na plateia, a nos devolver a nossa imagem, nós os artistas no palco, paralisados.


Nada dura mais que um instante, logo recobramos o movimento dos nossos corpos, logo estamos de volta ao nosso lugar. Nada está ali para durar: basta um breve afastamento e percebemos estar diante da evanescência, da efemeridade. No tempo de um suspiro, ou pouco mais, os balões estarão murchos, cobrirão o chão já sem nenhum brilho, suas cores agora quase mortas, a festa quase acabada.


Mas antes de irmos embora, uma última presença inesperada. Flávia no centro do palco, a contemplar os balões como quem contempla outro passado, menina a vasculhar no tempo a sua própria infância. Eis a sua fantasia reiterada: o anseio de repetição e retorno que habita toda criança, restauração momentânea do que mais deseja, a leveza, a cor, a rua, o céu. Eis o que a artista nos devolve, ainda que por um átimo, indevassável: a nossa infância, em tudo o que tem de absurdo, em tudo o que tem de graça.


Julián Fuks

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