Museu de Novidades

Marcelo Tinoco

29/Fev/2020 – 02/Mai/2020

Voltar a lista de exposições

Press Release

Em “Museu de Novidades”, o artista Marcelo Tinoco sai em busca do belo e eterno na história da arte. Com inspiração nos grandes mestres da pintura e no trabalho paisagístico de Roberto Burle Marx, Tinoco inaugura a exposição “Museu de Novidades” no dia 29 de fevereiro, às 12h; Nancy Betts assina o texto crítico da exposição.


[Clique aqui para fazer um Tour Vitual 3D pela exposição]


Segunda individual de Tinoco na Zipper Galeria, a mostra reúne a série homônima onde o artista realoca personagens emblemáticos das obras de grandes mestres da pintura ocidental — como “O Nascimento de Vênus” de Sandro Botticelli, “Ophelia” de John Everett Millais e “Retrato de Mada Primavesi” de Gustav Klimt — em ambientes originalmente estranhos à composições originais — os personagens icônicos são realocados nos jardins botânicos de Londres, Berlim, São Petersburgo, e principalmente o do Rio de Janeiro.


A proposta do artista é, desta forma, estabelecer deslocamentos temporais e estilísticos entre elementos da história da arte em trabalhos que mesclam registro fotográfico, desenho de observação e pintura digital. É o que Marcelo Tinoco chama de “fotografia multidisciplinar”, ou seja, o resultado de intervenções na imagem fotográfica com o objetivo de deslocar este suporte da função de representação fiel da realidade para outros campos das artes visuais. “Nesta série, selecionei referências que podem ser relidas, revalorizadas e recicladas em novos diálogos contemporâneos. São figuras que sempre me tocaram afetivamente, e continuam me encantando até hoje” diz o artista.


O processo se inicia com o registro documental (de paisagens, obras de arte, museus, monumentos, cidades) e se segue com a edição e a colagem destes “rascunhos fotográficos” para a construção de uma nova cena, uma nova composição. Fotografados em seus museus de origem muitas vezes de maneira simples com o celular, após a edição das imagens os personagens clássicos são recriados em grandes dimensões, através do desenho de observação e inseridos em novos cenários. Marcelo Tinoco faz uso da pintura digital à mão livre para criar áreas inteiras com pincel digital autoral. Por fim, a nova composição é iluminada e finalizada com uso de cores e contrastes. “Posso dizer que se trata de uma reciclagem artística. É como se o nascimento da Vênus tivesse sido, desta vez, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro”, ele comenta.


A exposição “Museu de Novidades” fica em cartaz na Zipper Galeria até 28 de março.


Sobre o artista


Marcelo Tinoco (São Paulo, Brasil, 1967) vive e trabalha em São Paulo. O artista intervém na imagem fotográfica com colagens, recortes e pinturas com pinceis digitais, compondo o que ele chama de “fotografia multidisciplinar”. Sua intenção é deslocar este suporte das funções de representação fiel da realidade para outros campos das artes visuais, como a pintura. Premiado no Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia (Brasil, 2013), seu trabalho figura nas coleções institucionais do Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt (Alemanha), do Museu da Imagem e do Som e do Museu de Arte do Rio. Principais exposições individuais: "Histórias Naturais", Caixa Cultural, Rio de Janeiro, Brasil (2014), "Timeless". Centro Cultural São Paulo, São Paulo, Brasil (2013), "Nova Fotografia", Museu da Imagem e do Som, São Paulo, Brasil (2012). Principais exposições coletivas: "Ao amor do público". Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro, Brasil (2016), Foto Bienal MASP/Pirelli, Museu Oscar Niemyer, Curitiba (2014), Programa de Exposições, Museu de Arte de Ribeirão Preto, Brasil (2013).


Texto crítico: Nancy Betts


Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. É professora de Evolução das Artes Visuais (História da Arte) na Faculdade de artes Plásticas – FAAP. Integra o corpo docente dos cursos de Pós-graduação de Audiovisual e Mídias Interativas do SENAC-SP, nas disciplinas de Semiótica da imagem e do som e Comunicação, Linguagem e Sentido respectivamente. Em 2005, professora convidada da UNICHAPECÓ-SC no curso de Pós-graduação lato sensu em Artes Visuais em Culturas Contemporâneas na disciplina de Semiótica do Visual. Pesquisadora CNPq em linguagem da arte e da artemídia. Projetos de curadoria – 2005 - Fidalga ’05, no Paço Municipal de Santo André, SP; 2003 – curadora adjunta na exposição A subversão dos meios, Itaú Cultural, SP; 2002 – Palavra-Figura, Paço das Artes, SP; 2000/1999 - XS/XL (extra small, extra large) MUMA (Museu Metropolitano da Arte), Curitiba-PR; Espaço Cultural dos Correios, RJ; Galeria Nara Roesler, SP; Galeria Marina Potrich, Goiânia-GO; Muna (Museu Universitário da Arte), Universidade Federal de Uberlândia, MG.

Texto crítico

Museu de Novidades, a nova série de obras de Marcelo Tinoco, é um quase-tudo. A transparência formal da fotografia é contrariada pelo componente pictórico que subjaz na potência e no esplendor das imagens. O quase define o apagamento de fronteiras entre fotografia, pintura e desenho, exponenciando e impelindo a plasticidade figurativa para uma realidade alternativa que não é só imagética, mas também relativa aos procedimentos e conceitos.



O artista sempre iniciou o processo de criação a partir de seu extensivo banco de imagens, fotografias documentais coletadas especialmente em viagens: paisagens, castelos, o mundo rural, monumentos, afrescos, obras de arte, e a natureza – árvores com as mais variadas e frondosas copas e de diferentes de espécies. Para a exposição Museu de Novidades, registra principalmente jardins tropicais, referências como Burle Marx, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e Royal Botanic Garden, o famoso Kew Garden, em Londres, o qual abriga uma estufa tropical com lagos de vitórias-régias gigantes e flores de lótus. Com um razoável corpus de data disponível, Tinoco usa as possibilidades das práticas digitais para começar sua fabulação artística. Planos são formados pela junção e justaposição em uma colagem de fragmentos das imagens clicada e recortadas. Esses samples irão compor o grande painel ficcional da paisagem final. E a ficcionalização ganha mistério e indeterminação espacial/temporal por meio do uso da cor. Determinada a paleta que será usada – neste caso, cores quentes e frias em tons baixos – todas as obras são trabalhadas dentro deste espectro, o que resulta não só na unidade cromática na série, como também numa visualidade um tanto irreal. Com um pincel digital, Tinoco desenha, redesenha, contorna, pinta, ilumina, adiciona elementos, criando, por meio dessa mistura lúdica, uma nova paisagem imaginária de grande impacto visual. Outro procedimento que dá unidade ao conjunto é o uso de um mesmo sample em diferentes obras, assim as vitórias-régias migram da Ofélia e da Vênus para as paisagens e as palmeiras que aparecem no Retrato de Mada Primavesi e se insinuam nas obras Burlemarxcromia I e II.



A apropriação e a intertextualidade são procedimentos já estabelecidos nas práticas contemporâneas. A apropriação tem um histórico que remete ao ato duchampiano relativo aos ready-mades. A intertextualidade como modalidade artística é mais recente, aparece visivelmente nos anos 1970 e advém da reprodutibilidade das imagens pela fotografia e pela acessibilidade destas pelos meios de comunicação. Basta recuperar no tempo presente textos distantes e já ocorridos para torná-los atuais e inseridos no fluxo da vida. A intertextualidade baseia-se numa relação dialógica entre passado e presente que permite a continuidade da arte. Por um outro viés, Warburg chamaria isso de Nachleben ou um após-vida, uma dimensão trans-histórica das imagens.



Por isso, História da Arte é hoje um imenso arquivo para pesquisas no campo da ressignicação. Tinoco ressalta que parte de um sentimento afetivo ao se apropriar de temas e figuras que representam padrões de beleza na Arte e deslocando-os para seus jardins surreais. Beleza é um conceito relativo. Modelos de beleza eternizados nas obras de arte vão se alterando de acordo com novos valores com o passar do tempo. Embora possamos admirar a Beleza etérea e idealizada da Vênus de Botticelli nos deslumbramos com o penteado mais moderno da Vênus de Marcelo Tinoco e seu corpo alongado próximo da beleza contemporânea das Barbies. Há, sim, uma semelhança que remete ao artista renascentista, porém sutis transformações ocorrem. Esse jogo de narração discursiva nos deleita. As fotos recriadas nos afetam exatamente porque há uma empatia. Figuras conhecidas ambientadas em circunstâncias extraordinárias e inesperadas produzem um prazer no reconhecimento destas imagens que fazem parte de uma memória coletiva do universo artístico. Graças à permissividade do mundo digital, os códigos podem ser alterados: Ofélia, de Millais, e a Vênus, de Botticelli, podem agora flutuar num outro ambiente; a Sevilhana, de Diego Lopez Garcia, sai de seu pátio interno para repousar num espaço aberto. Tinoco, parafraseando Benozzo Gozzoli, opera uma remixagem no afresco, da parede leste, da famosa série dos Reis Magos, na Capela do Palácio Medici-Riccardi, em Florença. Em Caminho para Montalcino, vemos Lorenzo, o Magnífico cavalgando numa paisagem geometrizada e monocromática em vez da estrada naturalista e acidentada da obra de Gozzoli. O artista também edita as personagens: no afresco original, Lorenzo é seguido pelo pai Piero II e pelo avô Cozimo, mas Tinoco elege substituir os dois personagens pelo cavaleiro barbudo do afresco da parede sul cuja postura é muito mais digna e elegante do que a dos Medici.



O caráter polifônico de construção conduz a peculiaridades da poética de Tinoco. O enfoque realista, linear e bressoniano da fotografia é inadequado para as fotos híbridas de Tinoco. O “momento decisivo” é substituído pelas múltiplas possibilidades da aventura não pré-determinada, um sistema aberto em que predomina a relação do artista com a Cultura – uma cosmovisão carnavalesca. Para Bakhtin, a cosmovisão carnavalesca “é dotada de uma poderosa força vivificante e transformadora e de uma vitalidade indestrutível” justo porque não se atém a uma racionalidade e a um dogmatismo, mas revive a construção na experimentação e na pluralidade de vozes.



No Museu de Novidades as obras são formas sincréticas de um livre contato entre o antigo e o contemporâneo, o ideal e o real, o sagrado e a profanação das normas, um mundo eterno e às avessas.
Nancy Betts

Catálogo