Iceberg

Fernando Velázquez

21/Jun/2018 – 11/Ago/2018

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Press Release

Dando sequência à sua pesquisa no campo da arte e tecnologia, o artista Fernando Velázquez apresenta sua terceira exposição individual na Zipper Galeria. Aberta no dia 21 de junho, “Iceberg” apresenta um conjunto de novos trabalhos que remetem ou exploram alegoricamente a figura do iceberg. “Enxergamos uma porção ínfima da totalidade do iceberg, já que a maior parte da sua massa encontra-se submersa. Alegoricamente, poderíamos pensar que o nosso entendimento da realidade se assemelha a um iceberg, já que necessariamente o campo do que conhecemos será infinitamente menor que o campo do que seria possível conhecer. O inconsciente, por exemplo, poderia ser a parte invisível de um iceberg chamado consciência", afirma o artista.


Ao partir do princípio de que o conhecimento a respeito de qualquer fenômeno é sempre relativo, parcial e incompleto, Velázquez se dispõe a pensar questões da contemporaneidade relacionadas ao crescente impacto da tecnologia no cotidiano e na nossa capacidade de estabelecer um diálogo crítico neste cenário.


A exposição ocupa a galeria principal com uma instalação multimídia na qual lasers acoplados a totens de madeira desenham um grid ortogonal, como paralelos e meridianos em um mapa, em alusão à geografia e ao território. Cada totem – cuja estrutura formal remete à vegetação do mangue – é uma pequena estação inteligente que conta com um microcomputador e um sensor. Em conjunto, os totens se comunicam entre si, via wifi. Utilizando dados da movimentação do público na sala, como velocidade, posição e distância, um algoritmo de inteligência artificial altera a posição dos feixes de laser modificando a configuração do território. Por baixo dos feixes de laser, no chão da galeria, é projetada uma animação em vídeo que apresenta de maneira alegórica e sintética o conhecimento acumulado pela humanidade – alfabetos, mapas, patentes, documentos, fórmulas, fotografias – em um sistema que contrasta a inteligência artificial dos algoritmos e máquinas com a inteligência humana.


Complementa a experiência imersiva uma trilha sonora espacializada em quatro canais, sincronizada aos lasers e à animação em vídeo. A trilha será editada em um álbum em vinil, cujo rótulo permite a leitura por realidade aumentada.


Um filme em realidade virtual em 360º (no qual icebergs flutuam e se modificam em um ambiente de gravidade não convencional) e um letreiro em neon com a inscrição "loop (mente a mente)” – sentença que emula a sintaxe de uma linguagem de programação e sugere que o entendimento da realidade é mediado pela mente e suas inerentes contradições e agenciamentos – completam o conjunto de trabalhos.


“Iceberg” fica em cartaz até 11 de agosto.


Sobre o artista
Fernando Velázquez (Montevidéu, Uruguai, 1970 - vive e trabalha em São Paulo desde 1997) é artista multimídia. Suas obras incluem vídeos, instalações e objetos interativos, performances audiovisuais e imagens geradas com recursos algorítmicos. Explora a relação entre natureza e cultura, colocando em diálogo dois tópicos principais: as capacidades perceptivas do corpo humano e a mediação da realidade por dispositivos técnicos. Mestre em Moda, Arte e Cultura pelo Senac-SP, pós graduado em Video e Tecnologias On e Off-line pelo Mecad de Barcelona, participa de exposições no Brasil e no exterior com destaque para The Matter of Photography in the Americas, Cantor Arts Center, Stanford University (EUA, 2018); Reinventando o Mundo, Museu da Vale, (Vitória-ES, Brasil, 2013), Emoção Art.ficial Bienal de Arte e Tecnologia, Itaú Cultural (São Paulo, Brasil, 2012), Bienal do Mercosul (Porto Alegre, Brasil, 2009), Mapping Festival (Suiça, 2011), WRO Biennale (Polônia 2011) e o Pocket Film Festival no Centro Pompidou (Paris, 2007). Recebeu, dentre outros, o Premio Sergio Motta de Arte e Tecnologia (Brasil, 2009), Mídias Locativas Arte.Mov (Brasil, 2008) e o Vida Artificial (Espanha, 2008). Foi professor convidado na PUC-SP, FAAP-SP e Senac-SP e ministra palestras e workshops em instituições públicas, privadas e do terceiro setor como, Stony Brook University (Nova Iorque), Cyberfest (São Petesburgo, Rússia), Naustruch (Sabadell, Espanha), Visiones Sonoras (Morelia, México). Foi curador dentre outros do Festival Motomix (2007) e do Festival Manobra (2009), e das exposições Adrenalina (2014) e Periscopio (2016).

Texto crítico

A licenc?a poe?tica opera um hiato, um curto-circuito - um agente provocador-na atrofia de uma situac?a?o que se encontra em estado de crise ou letargia poli?tica, social, confessional, e?tnica, econo?mica ou militar. Atrave?s da natureza absurda e por vezes impertinente do ato poe?tico, a arte provoca um momento de suspensa?o do significado, uma sensac?a?o de insensatez que pode revelar o absurdo da situac?a?o. Atrave?s desse ato de transgressa?o, o ato poe?tico sinaliza uma passo atra?s ante as circunsta?ncias. Em resumo, pode fazer com que vejamos as coisas de maneira diferente.


Francis Alys


Um iceberg é uma montanha de gelo que, após se desprender de uma geleira, vagueia pelos oceanos e mares até desaparecer. Ilhas, por vezes continentes à deriva, os icebergs são fascinantes, frágeis e poderosos; belos e assustadores. Efêmeros, materializam elegantemente a natureza em processo.


São inúmeros os pensamentos que a figura do iceberg dispara em mim, mas o que mais desperta a minha curiosidade e imaginação é o fato de que a maior parte de um iceberg fica oculta, latente, intuída, a priori invisível aos nossos olhos. Esta característica me levou a pensar uma série de alegorias – como, por exemplo, a de que o inconsciente seria a parte invisível de um iceberg chamado consciência. Sabemos que os sentidos aferem um recorte limitado de informações sobre o ambiente. Necessariamente, o campo do que conhecemos será sempre menor do que o campo que seria possível conhecer. Assim, aguçar o faro à procura do lado oculto de coisas e fenômenos seria uma estratégia substancial para a nossa sobrevivência e expansão.


É com base em pressupostos como o mencionado anteriormente que nesta nova série de trabalhos me disponho a refletir serendipticamente sobre o tempo histórico em que vivemos, época pautada pelo embate crítico do homem com a tecnologia. O processo de pesquisa orgânico, intuitivo e antropofágico fez com que se estabelecessem diálogos com minha produção anterior. É possível reconhecer ideias, conceitos, citações e reconfigurações de obras das séries in between, Mindscapes e Reconhecimento de Padrões.


A narrativa não-linear proposta pelo conjunto de obras sugere um iceberg que contrapõe a “inteligência natural” desenvolvida pelo Sapiens durante milênios à inteligência artificial sintética, exponencial e singular dos computadores atuais.


coda:


Os seres humanos somos basicamente água, e, como icebergs, nos desprendemos da nossa matriz para esquivar os atritos da vida até o nosso corpo sucumbir.


Nunca vi um iceberg, embora seja um.


Fernando Velázquez
junho, 2018

Catálogo