Chão em Chamas

João Castilho

05/Out/2017 – 04/Nov/2017

Voltar a lista de exposições

Press Release

Em “Chão em Chamas”, nova individual na Zipper Galeria, o artista João Castilho exibe novas séries fotográficas e de objetos que se apresentam como indícios de uma nova reordenação do mundo: fenômenos aparentemente simples que prenunciam alterações drásticas em um futuro próximo, ou que desencadearam-nas em um passado remoto. Os novos trabalhos de Castilho precipitam narrativas orientadas, principalmente, pelo vetor temporal. Com curadoria de Michelle Sommer, a mostra inaugura no dia 5 de outubro.


O título da exposição foi emprestado do livro de contos do escritor e fotógrafo mexicano Juan Rulfo, publicado pela primeira vez em 1953. Entre grande variedade de personagens e situações narradas pelo autor, há em comum um clima de aridez que é o cenário de um eterno embate entre a sobrevivência e a extinção. Chão em Chamas trás ao mesmo tempo a ideia de fim e de começo.


Apontando para um futuro distópico, a fotoinstalação “Revanche Animal” (2017) de Castilho, composta por dezenas de cianótipos, faz uma composição que propõe uma nova hierarquia na cadeira alimentar, em que o ser humano é ameaçado no topo. Na mesma direção, a fotoinstalação “Dois Sóis” (2017) forma uma céu que abriga dois sóis, em uma situação ligada a um imaginário apocalíptico. Já na série de esculturas em bronze “Torres” (2017), instaladas sobre bases de concreto, o desequilíbrio toma forma em casas de João de Barro empilhadas como em um edifício.


No vetor temporal oposto, direcionado ao passado, dois trabalhos com pegadas abrem um arco temporal que vão à época dos dinossauros, seres que, em uma perspectiva geológica, estavam à beira da extinção sem saber. A fotoinstalação “Passos Fósseis” (2017) registra pegadas de dinossauros que datam mais de 100 milhões de anos, produzidas em sítio paleontológico na Paraíba. E, em contraponto a estas, “Marca Infinita” (2017) mostra pegadas de animais de nossa era – como macaco, onça parda, tamanduá-bandeira, ema, jabuti, arara e onça pintada - “fossilizadas” em bronze pelo artista. O indício é de que, nas duas séries, o presente figura como uma ausência.


“Chão em Chamas” fica em cartaz até 4 de novembro.


Sobre o artista


João Castilho (Belo Horizonte, Brasil, 1978) é artista visual e trabalha com fotografia, vídeo e escultura. Sua produção têm inspiração na literatura, na cultura popular, nas paisagens do cerrado brasileiro, na relação com a natureza, nas cenas cotidianas e temas da atualidade. O trabalho do artista está presente em coleções institucionais como Musée du Quai Branly, Paris; Pinacoteca do Estado, em São Paulo; Coleção Pirelli/MASP de Fotografia, São Paulo; e Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro. Ganhou prêmios da Fundação Conrado Wessel de Arte, em 2014; e a Bolsa de Fotografia, do Instituto Moreira Salles, em 2013. Foi um dos artistas selecionados para o 19º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil e da Bienal do Mercosul, em 2015. Principais exposições individuais: Zoo, Bratislava, Eslováquia (2016), Caos-mundo. FUNARTE, Belo Horizonte, Brasil (2013), Fundação Joaquim Nabuco, Recife, Brasil (2010). Principais exposições coletivas: "L’Autre Visage". Embaixada do Brasil na Bélgica, Bruxelas (2017); 10th Bienal do Mercosul, Porto Alegre (2015); Singularidades/Anotações, Itaú Cultural, São Paulo (2014); XX Bienal Internacional de Curitiba, Curitiba, Brasil (2014); I Bienal de Fotografia. MASP, São Paulo, Brasil (2014).


Sobre a curadora


Pós-doutoranda em Linguagens Visuais na EBA/PPGAV/UFRJ (2017), Michelle Sommer é doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pelo PPGAV/UFRGS (2012-2016), com estágio doutoral junto à University of Arts London / Central Saint Martins (2015). É mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo PROPUR/UFRGS (2003-2005) na área de cidade, cultura e política e arquiteta e urbanista pela PUCRS (1997-2002). É autora do livro Práticas Contemporâneas do Mover-se (2015) e Territorialidade Negra: a herança africana em Porto Alegre, uma abordagem sócio-espacial (2011). Integra o corpo docente na Escola de Artes Visuais Parque Lage / RJ e é co-curadora, juntamente com Gabriel Pérez-Barreiro, da exposição ‘Mário Pedrosa: de la naturaleza afectiva de la forma’, atualmente em ocorrência no Museu Reina Sofia / Madri, de abril à outubro de 2017. Contribui regularmente para publicações nacionais e internacionais e realização de projetos de artes visuais em diversos formatos. Atua no ensino, pesquisa, crítica e curadoria de artes visuais.

Texto crítico

Mora-se no universo; mora-se na Terra; mora-se na casa; mora-se no corpo. Estamos sempre morando – gerúndio incessante – dentro. Sobre a terra, sob o céu - diante do divino e entre os mortais - há uma grande ‘guardação’ que guarda uma gradação de contidos. No entanto, na estrutura que conforma o cosmos reside uma estranha disjunção estrutural.


Chão em chamas conecta contidos em um arco temporal aberto entre passado e futuro que são reordenados em um estado distópico por João Castilho. Na fronteira do que já não é o antes e nem tampouco, ainda, o depois; o artista estanca o presente como um momento absolutamente necessário para o momento seguinte. Talvez porque o fim não seja um evento futuro, mas algo já realizado e o retorno do homem à animalidade não seja uma possibilidade porvir, mas uma certeza do agora.


Nessa zona de neblina, a emergência do surreal deriva de fabulações que parecem ter cheiro de sol tostado que acorda as coisas e dá vida às formas em experimentações narrativas. Algo está entre o estranho e o familiar, que consegue ser visto como próximo e ao mesmo tempo distante, desconhecido e inquietante, que fascina pelo sentido misterioso característico daquilo que não pertence ao reconhecimento imediato do identificável ‘o que é’. Na ausência de contorno do presente estancado está uma aparente calma que, lentamente, a tudo perturba. Talvez seja esse o último dia da Terra e estamos entre a catástrofe e a redenção.


O céu ardente de Dois Sóis (2017) são nascentes ou poentes? Se o aclive pode ser início, o ocaso é declive rumo ao fim de algo que chega ao seu limite, incluso o momento em que o sol atravessa a linha do horizonte e desaparece. Uma galinha de tênis, a roleta russa do cão, um jacaré toca a campainha: Revanche Animal (2017) é vicissitude da memória em registros coletados da internet que são transformados em imagens cianotípicas - a luz do sol - ou de dois sóis - também pode ser força de impressão. Nessa paisagem azul, uma composição de fragmentos ruma para um devir humano animal, embaralhada por desejos de reparação frente a uma humanidade derrotada.


Enquanto um homem canta um canto do animal pássaro – Birdman (2017); o pássaro João de Barro é evocado com sua unidade mínima de habitar – ninho - que, empilhada em Torres (2017), comporta-se como um edifício modernista em desequilíbrio, onde corpos vizinhos compartem separações.


Passos Fósseis (2017) apreende em fotografias rastros de pegadas de dinossauros encontrados na Paraíba (escala temporal de 100 milhões de anos) e, assim, o passado é impresso e eternizado simultaneamente ao tempo presente em que os animais da nossa era são fossilizados em bronze para configurar Marca Infinita (2017). Da prisão do tempo à prisão do vento - que é movimento – três Pequenos Furacões (2017) sustentam-se em um estático equilíbrio flutuante. Como um bálsamo entre o jogo de opostos, Rio (2017) contém montanhas fractais douradas que guardam rastros de águas passadas que navegaram para outras margens mais além, entre as tantas viagens que um rio tem.


Chão em chamas é campo magnético de contrários, atesta presenças no presente ausente, apresenta o dissenso do estado que estamos. Na Terra que arde - e por vezes queima - na agitação incômoda com certa graça melancólica e um meio-sorriso de pessimismo alegre, o tempo apocalíptico de João Castilho é ficção pluralista que guarda poesias sem fim. Antes do depois.


Michelle Sommer

Catálogo