Zip'Up: Gárgulas ao sol do meio-dia

Maíra Senise

01/Mar/2018 – 07/Abr/2018

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Press Release

“Gárgulas ao sol do meio-dia”, exposição individual de Maíra Senise na Zipper, caminha no limite entre o que é inofensivo e o que é hostil. O conjunto de pinturas e pequenas esculturas surgem a partir de um imaginário que mistura fábulas desconcertantes ao cotidiano de ornamentos femininos dos esmaltes de unhas a purpurina. Organizada pelo projeto Zip’Up, a mostra inaugura no dia 1º de março.


As telas de Maira partem muitas vezes de símbolos de um universo infantil, ao mesmo tempo em que se aproximam de uma representação primitiva, em um limiar entre a figuração e a abstração. A tentativa de transformar a pintura em desenho confere mais liberdade nas escolhas e nas técnicas; muitas vezes, a artista opta por deixar a tela crua, se apropriando desta informação como elemento essencial do trabalho. Figuras desenhadas apenas pelo contorno, que surgem a partir de formas anamórficas, como animais em silhueta e seres híbridos, aparecem com frequência nas pinturas a óleo de camadas densas e esmalte.


Já na série “Esculturas de Mão Dobrada”, objetos disformes feitos em argila pintada com tinta acrílica e preenchidos com óleos produzidos pela artista reforçam um processo orgânico que não visa, aparentemente, criar um trabalho escultórico, mas refletir sobre esta ação de algo que se molda no contato com as mãos.


“Picasso dizia que levou a vida inteira para pintar como uma criança porque o que parece destituído de sentido no rabisco da infância é o início da forma, como a geometria na maça de Cézanne. Animais desorientados por raios nos assistem do outro lado perturbador da tela de Maíra a nos acolher na alegria de cores iluminadas e, ao mesmo tempo, nos assustar como as Gárgulas suspensas em castelos ou igrejas a cuspirem as águas das chuvas no arco íris ou no sol do meio-dia”, escreve Katia Maciel, curadora da exposição.


Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes ainda não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos seis anos, somam mais de quarenta exposições e cerca de 60 artistas e 20 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.


“Gárgulas ao sol do meio-dia” fica em cartaz até 7 de abril.


Sobre a artista


Radicada em Nova York, Maíra Senise (Rio de Janeiro) produz, principalmente, pinturas e esculturas em cerâmica. Seu trabalho, frequentemente, reflete sobre os mistérios da relação entre mundos interno e externo, a partir de figurações de seres híbridos. Principais exposições individuais: “Todo el Mundo se come”, Machete Galeria de Arte, Cidade do México (2017). Principais exposições coletivas: “1St Gestures”, Garden Space, NY (2017); “Resilience”, Emma Thomas Gallery, NYC (2016); “Reunião 2”, Castelinho do Flamengo, Rio de Janeiro (2015).


Sobre a curadora


Katia Maciel (Rio de Janeiro, Brasil 1963) é artista, poeta e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua obra investiga o imaginário próprio das imagens em relações com a paisagem, os objetos e a palavra. Em seus vídeos e instalações, a influência do cinema é flagrante na escala, na poética do movimento, na inclusão do espectador. Recebeu, entre outros, os prêmios: Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio (2013), Prêmio da Caixa Cultural Brasília (2011), Funarte de Estímulo à Criação Artística em Artes Visuais (2010), Rumos Itaucultural (2009), Prêmio Sérgio Motta (2005), Petrobrás Mídias digitais (2003), Transmídia Itaúcultural (2002), Artes Visuais Rioarte (2000). As obras da artista encontram-se nas coleções Gilberto Chateaubriand, Museu de Arte do Rio, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Oi Futuro do Rio de Janeiro e Maison Européenne de la Photographie, entre outras.

Texto crítico

Gargoyles in the midday sun


A set of paintings and small sculptures by Maíra Senise emerge - one from the other - as part of an imaginary that blends together disconcerting fables and a daily life of feminine ornaments, from nail polish to glitter.


Yes, what we see between the vases are little animals, and the colour palette does oscillate mainly along pastel shades, but the artist’s painting disfigures the passivity of a universe that is childish only in appearance by constructing deviations of form and intertwining the human and the animal.


Picasso once said that it had taken him his entire life to learn how to paint as child, since what appeared to be devoid of sense in the child’s scribbles was actually the beginning of form. In the geometry of Cezanne’s apple we see the beginning of things, of all things, the linear schemata, not as a reduction of the world, but an expansion of the origin as expression. Abstraction, however, was to follow down the informal route of world disfiguration.


A familiar landscape with a house and a garden holds strange characters, as though they were menacing creatures that surface with the purpose of disfiguring what seemed innocent. A girl in pink is seen holding a head, an outstretched deformed doll, out of scale animals haunt what could compose an orderly, idyllic world. On the contrary, we witness the disorderly, we see what is taking shape in a raw, as yet unpainted background. What is presented, then, is a road to abstraction, an abstraction that doesn’t stop at evading figurativeness and insists on a different construction in which what we see cannot be recognised or identified because it remains within the inorganic, unimagined world conceived by the artist.


The small sculptures are like animals that have fallen out of the canvases, unnerved by this new world, their contours warped by senseless motion. Being small-scale, they add a glow to the scenes taking place in the paintings. Both Maíra’s paintings and sculptures follow the same poetic and aesthetic principles – the devenir-animal spread through equivocal landscapes amid spilled jars of paint.


Animals disoriented by lightning watch us from the chilling other side of Maíra’s images, welcoming us in the joy of glowing colours while, at the same time, frightening us as gargoyles suspended on castles and churches, spitting rainwater into rainbows or the mid-day sun.


Katia Maciel

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