Ciclo

Monica Piloni

11/Mai/2019 – 08/Jun/2019

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Press Release

A exposição individual “Ciclo”, primeira de Monica Piloni na Zipper Galeria, se situa em algum ponto entre o corpo e o objeto, a escultura e a instalação, o erotismo e o bizarro. A mostra reúne novos trabalhos da artista que distorcem o corpo humano com desmembramentos, omissões ou multiplicação de elementos, gerando formas não naturais, frequentemente incômodas.


A mostra expressa as permanências e as transformações em curso no trabalho desta artista que tem na representação do corpo o seu ponto de partida. Uma das obras, em especial, representa estes dois estágios: em “Gangorra”, a maior na exposição, duas figuras humanas se debruçam em cada uma das pontas de uma mesa, que, num ciclo incessante, oscila como uma gangorra. A inserção de objetos cênicos – como um espelho, um livro que se torna um biombo e mobiliários invisíveis – e a concepção instalativa indicam a transição por que o trabalho dela passa.


No campo das permanências, Monica Piloni mantém o processo de ser o modelo vivo em seu trabalho. A partir de moldes produzidos no próprio corpo da artista, a anatomia original é modificada. Resulta, muitas vezes, que aquelas figuras passem a não ser mais identificados como corpos, mas como objetos, por veze seres misteriosos e desconhecidos. “O dado do irreconhecível é algo que me move. Investigo se há um prazer por trás do medo. Meu trabalho depende da reação do público. Eu preciso desta resposta, deste espelho”, ela afirma.


A exposição “Ciclo” inaugura no dia 11 de maio, às 12h, e fica em cartaz até 08 de junho.


Sobre a artista


Em esculturas, objetos e fotografias, Monica Piloni (Curitiba, Brasil, 1978) distorce o corpo humano com desmembramento, omissão ou multiplicação de elementos, que geram uma forma perturbadora e não natural, muitas vezes mórbida. Seu trabalho, ao mesmo tempo, questiona a sexualização da figura feminina e instiga sensualidade, por meio de corpos nus distorcidos que repelem e atraem. Entre suas exposições individuais, destacam-se “Monica…”, Epicentro, São Paulo, em 2017, e a intervenção urbana “Ilegais”, na Rua da Aurora, em Recife, em 2014. Participou de mostras coletivas como "Demasiado Pasolini”, Biblioteca Mário de Andrade (2015); TRIO Bienal, MNBA, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (2015); “Nova escultura brasileira”, Caixa Cultural, Rio de Janeiro (2011), "O Colecionador de Sonhos" Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto (2011), entre outras. Seu trabalho figura em importantes coleções brasileiras, como Inhotim, MAC Niterói e Instituto Figueiredo Ferraz.

Texto crítico

Ciclo insondável


Ao final da segunda década deste século não deixa de ser notável o interesse pela representação da figura humana no campo da arte, depois das muitas investidas contra a arte figurativa e seus vínculos com a realidade objetiva e o realismo. O corpo, seus gestos, necessidades e desejos se tornaram um elemento-chave nas questões sociais e políticas mais prementes de nossa época, e isso se reflete no imaginário dos artistas contemporâneos. O interesse pela figuração pode ser também consequência da presença dominante do corpo nas plataformas sociais, na fotografia, no cinema, na performance, no ativismo. São os corpos que cada vez mais performatizam as intervenções nos espaços das cidades e nos ambientes de mídia, que buscam o reconhecimento de suas diferenças e igualdades, negociando ou lutando por uma nova concepção do próprio corpo e por novas definições do self. Mais do que uma retomada dos valores da arte figurativa, provenientes das tradições da pintura e da escultura, o que temos agora é uma prática artística conectada aos mesmos princípios que orientam as vanguardas de nossa sociedade em seus questionamentos das noções tradicionais de gênero, sexualidade e processos de subjetivação.


É neste espírito de época que o trabalho de Monica Piloni parece evocar as forças que atuam sobre os corpos, por um entrelaçamento entre aparência e essência, fato e ficção. A beleza dos corpos femininos na obra da artista é notável, embora eles pareçam ter sofrido algum tipo de mutação, ou efeitos de uma tensão, deixando à mostra um estado de desequilíbrio de formas bem modeladas, mas abertas a algum tipo de desvio. O corpo feminino é sempre o de uma personagem que se espelha em si mesma, espécie de eco que insiste em reverberar no próprio corpo, como se essa personagem fosse um desdobramento de alguma interioridade que não nos é dada a conhecer, e dela o que vemos é sempre uma superfície dobrada, redobrada, rebatida.


Ao olhar para o conjunto da obra da artista, somos confrontados com uma espécie de gabinete de curiosidades, povoado por representações que explicitam uma fragmentação e um esquartejamento da beleza num universo formado por uma personagem muitas vezes sem face, de cujas aberturas não vertem órgãos ou vísceras, mas um incômodo vazio. Neste conjunto, as figuras revelam algo um tanto apreensivo e vagamente erótico. Os corpos femininos estão calçados num objeto símbolo do fetiche, que os tornam vulneráveis e instáveis, pois sobre um salto daquela altura nenhum corpo pode correr nem fugir, se necessário. O caminhar se apoia num equilíbrio precário, tornando-se refém de uma imagem, e a própria artista admite certa tensão sob a capa de glamour que irradia de seu trabalho. Afinal, algumas esculturas revelam uma espécie de vazio onde supomos haver uma plenitude das formas. Quando decidimos procurar por uma interioridade, um núcleo com uma identidade, o que encontramos é uma ausência semelhante ao conteúdo inexistente de um livro que só se mostra por sua capa, espécie de biombo que oculta um corpo ausente. Mas curiosamente é este mesmo vazio que dá sustentação às figuras que parecem levitar no ar, como se sustentadas por uma força invisível que torna aqueles corpos ainda mais frágeis e leves.


A busca por significados numa obra como a de Monica Piloni nos faz acreditar que ela esconde algo para ser decifrado, como se um enigma envolvesse a própria figura da artista, já que muitas de suas esculturas foram feitas a partir de um autorretrato. A tendência a encontrar hipóteses de leituras cercando sua figura é tentadora, como igualmente seria aproximar seu trabalho das questões de afirmação feminista pulsantes em nossos dias. Mas os artistas, no entanto, nunca se deixam capturar tão facilmente. Em representações de corpos com amputações cirúrgicas e limpas não se deve esperar uma pista fácil para a leitura do seu conjunto. Impera certo silêncio e tensão nas peças que, ao mesmo tempo, sugerem atração e repulsa pelo que temos à frente. A beleza rapidamente se converte em monstruosidade, como no contorno suave e delicado do torso de uma modelo, que se duplica e se avoluma no espaço à frente de um espelho, replicando uma realidade já desdobrada e rebatida sobre si mesma, transformando o que seria um torso clássico numa massa de carne que parece apenas focada no desejo pelas partes mais erotizadas daquele mesmo corpo. O reflexo – que sempre associamos a uma imagem plana na superfície de um espelho – foi, nessas esculturas, duplicado na estrutura de um corpo feminino, gerando uma imagem de siamesas. Como numa mitologia própria, essas entidades siamesas são ligadas muitas vezes pelo próprio cabelo. E este parece ter um protagonismo nos trabalhos de Monica Piloni, nos quais, via de regra, ele reafirma ou oculta um mistério. Em outras de suas obras ocorre uma profusão de bocas e genitálias, mãos que agarram e cabelos que se dobram sobre si mesmos, sugerindo um êxtase aos pedaços, uma flutuação de corpos incompletos num gozo contido. Mas tudo isso são conjecturas a que esse trabalho nos induz – como se nosso julgamento pudesse lançar luzes sobre as sombras do mistério produzido por essas esculturas.


Mario Ramiro

Catálogo