BOMBRASIL

Romy Pocztaruk

18/Ago/2018 – 15/Set/2018

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Press Release

Em sua primeira individual na Zipper, a artista Romy Pocztaruk, que passa a ser representada pela galeria, apresenta a série “Bombrasil”, uma investigação fotográfica e documental sobre o desdobramento no Brasil da corrida armamentista nuclear durante a Guerra Fria. O projeto paralelo, conduzido secretamente pela Ditadura Militar entre as décadas de 1960 e 1980, buscava o desenvolvimento de tecnologia para enriquecimento de urânio, construção de bomba atômica e de um submarino atômico no país. Dele, resultou a construção das usinas nucleares em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, que foram fotografadas pela artista. Romy também visitou outros locais relacionados ao programa nuclear brasileiro, como o Reator Argonauta e os arquivos da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear).


Com curadoria de Luisa Duarte, “BOMBRASIL” abre no dia 18 de agosto. O momento é particularmente oportuno: recentemente, o governo Michel Temer anunciou a retomada do programa nuclear brasileiro, que prevê a construção de novas usinas termonucleares e o aumento da exportação de urânio. A individual de Romy reúne fotografias da artista realizadas nas instalações das usinas, em composições com imagens dos arquivos da CNEN. Também apresenta cartazes que reproduzem manchetes sobre programa atômico brasileiro após o final da ditadura.


A ideia de jornada é recorrente na produção da artista, que costuma se envolver em longas pesquisas investigativas. Ela percorre geografias distantes para registrar os vestígios de lugares abandonados que foram, um dia, projetos faraônicos. Tal como em “A última aventura”, série em que Romy registra os vestígios da construção da rodovia Transamazônica, o trabalho “Bombrasil” revisita outra face do projeto desenvolvimentista da Ditadura Militar. Ambos trazem consigo a ideia de inserir o país em uma rota de modernidade. “Estes grandes projetos carregam uma utopia. Me interessa a criação do imaginário político, social e econômico sobre o que é o Brasil. Ao revisitar os projetos da ditadura, podemos entender muito sobre o nosso presente. São projetos ocultos, quase esquecidos”, a artista afirma.


A concepção expográfica de “BOMBRASIL” é baseada na mostra “Átomos para Paz”, realizada em 1959 pelos governos americano e brasileiro para divulgação pacífica da energia nuclear no Brasil. O programa, desenvolvido pelos EUA após os ataques a Hiroshima e Nagazaki, tinha a finalidade de criar uma nova imagem do desenvolvimento atômico em curso na época. O discurso da exposição buscava distanciar a ciência da ideia da guerra, promovendo a imagem dos EUA associada às vantagens da nova fonte de energia, ao divulgar informações sobre suas aplicações na pesquisa científica, indústria e saúde.


“BOMBRASIL” fica em cartaz até 15 de setembro.


Sobre a artista


Em diversos suportes, Romy Pocztaruk (Porto Alegre, 1983) lida com simulações, refletindo sobre a posição a partir da qual a artista interage com diferentes lugares e com as relações entre os múltiplos campos e disciplinas com a arte. Diversas vezes premiado, o trabalho da artista está presente em coleções como Pinacoteca do Estado de São Paulo e Museu de Arte do Rio. Com a série “A Última Aventura”, em que a artista investiga vestígios materiais e simbólicos remanescentes da construção da rodovia Transamazônica, projeto faraônico, utópico e ufanista relegado ao abandono e ao esquecimento, Romy participou da 31ª Bienal de São Paulo. Principais exposições individuais: “Geologia Euclidiana”, Centro de Fotografia de Montevideo, Uruguai (2016); “Feira de ciências”, Centro Cultural São Paulo (2015). Principais exposições coletivas: “Uma coleção Particular: Arte contemporânea no acervo da Pinacoteca”, Pinacoteca de São Paulo, São Paulo (2015); “Télon de Fondo”, Backroom Caracas, Venezuela (2015); “BRICS”, Oi Futuro, Rio de Janeiro (2014); “POROROCA”, Museu de Arte do Rio de Janeiro (2014); “9ª Bienal do Mercosul”, Porto Alegre (2013); “Region 0”, The Latino Video Art Festival of New York, New York (2013); “Convite à viagem: Rumos Itau Cultural”, Itau Cultural, São Paulo (2012).


Sobre a curadora


Luisa Duarte é crítica de arte e curadora independente. É crítica de arte do jornal O Globo, desde 2009. Mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica - PUC-SP. Doutoranda em teoria da arte pela UERJ em 2017. Foi por cinco anos membro do Conselho Consultivo do MAM-SP (2009-2013). Foi curadora do programa Rumos Artes Visuais, Instituto Itaú Cultural (2005/ 2006); Foi coordenadora geral do ciclo de conferências "A Bienal de São Paulo e o Meio Artístico Brasileiro - Memória e Projeção", plataforma de debates da 28ª Bienal Internacional de São Paulo, 2008; Foi curadora de quatro edições do Red Bull House of Art, projeto de residências artísticas e mostras no centro de São Paulo voltado para artistas em começo de trajetória, 2009/2010; Foi curadora da exposição coletiva "Um Outro Lugar", MAM - SP, 2011; integrou a equipe de curadoria de Hans Ulrich Obrist para a mostra “The Insides are on the Outside”, Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, São Paulo, 2013; Foi organizadora, em dupla com Adriano Pedrosa, do livro ABC – Arte Brasileira Contemporânea, Cosac & Naify, 2014. Foi organizadora, em dupla com Pedro Duarte, do Seminário Internacional Biblioteca Walter Benjamin, MAR - Museu de Arte do Rio de Janeiro, 2016.

Texto crítico

Memória e resistência são irmãs. Não resta dúvida de que a obra de Romy Pocztaruk afirma essa paridade. Seu programa poético, construído ao longo da ultima década, nos dá a ver uma pesquisa que se apropria criticamente do passado com vias a reconfigurar o nosso olhar diante do presente e, consequentemente, nossa perspectiva de futuro. Nesse ponto a artista se aproxima do materialismo histórico, tão bem delineado por Walter Benjamin (1892-1940), ainda na primeira metade do século XX.


Nas “Teses sobre o conceito de história” (1940), encontra-se a articulação textual de uma imagem dialética: “Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”


O materialista histórico tem olhos voltados numa direção: a do que precisa ser salvo. Aqui ele aparece transfigurado como o anjo da história. Ele está voltado para o passado, e não enxerga sem espanto a realidade que tem a frente de seus olhos. Pois, onde o historicista clássico vê uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma grande catástrofe; onde o historicista vê uma sucessão de vitórias, ele vê um amontoado de ruínas. Ele quer parar, recolher os destroços, juntar os fragmentos, acordar os mortos, salvar. Mas não pode, a tempestade que o impede é demasiadamente forte e o leva em direção ao futuro. O historicista, no seu ímpeto progressista, vai deixando para trás ruína sobre ruína. Estas ruínas são a transfiguração do acúmulo de sofrimento dos perdedores. É para reverter este processo, e transformar a história num campo de luta, e não de complacência, que trabalha o materialista histórico. A nova temporalidade proposta por Benjamin é o mecanismo que propicia esta transformação. Aqui, o ato de acessar o passado tem como bússola a urgência do presente. Pois só tendo em vista este prisma torna-se viável a retirada do objeto histórico do continuum do tempo, viabilizando assim uma modificação do nosso tempo. Ao apropriar-se do passado tal como este relampeja num momento de perigo, o historiador materialista tem a oportunidade de “despertar no passado as centelhas da esperança”. Este momento de perigo é a inflexão que determina a diferença.


A pesquisa “Bombrasil”, nesta atual versão em cartaz na Zipper, traz consigo esse ethos benjaminiano. Entramos na galeria e nos deparamos com um ambiente asséptico. Quatro estruturas de metal abrigam diferentes imagens em preto e branco que, diagramadas de maneiras distintas, estão penduradas de modo a evocar o display de uma espécie de feira de ciência ocorrida em um tempo remoto. As fotografias ali expostas apresentam registros de laboratórios, computadores que ocupam salas inteiras, ou ainda mulheres e homens de jalecos brancos que manuseiam, com precisão, tubos de ensaio. Vemos ainda máquinas indecifráveis e ambientes anódinos que nos endereçam pistas, como a foto de uma recepção que traz a inscrição: “Angra I”.


Ao redor desse aparato, as paredes acolhem pôsteres ampliados que trazem, em uma visualidade que se apropria de um saber do design gráfico de cunho construtivista, os seguintes dizeres: Protocolos secretos existem; Brasil prepara local para teste nuclear; Brasil não quer a bomba atômica mas quer submarino; Brasil deverá ter sua primeira bomba atômica em 1990; Itamaraty nega o plano para bomba.


As manchetes relatam um programa atômico brasileiro iniciado na ditadura militar e cujo fim ainda desconhecemos. O espaço expositivo é crivado por um banco de madeira preso à parede que traz uma vela, tal como a de um barco, em sua ponta. Por fim, o ambiente é adornado com diferentes tipos de plantas. Essa “cenografia” evoca um estande promovido pela CEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) em uma exposição batizada de “Átomos em ação”, em 1959.
Assim, a artista embaralha intencionalmente as cartas. O que é arquivo? O que é imagem atual? Ainda é possível crer em uma imagem? Estamos diante de uma investigação sobre os desdobramentos da corrida armamentista nuclear em uma época marcada pelo regime militar no Brasil. Artista/historiadora, Romy passou meses entre trabalho de campo e pesquisa em arquivos a fim de escrutinar esse ponto cego de nossa história recente. A rodovia Transamazônica, que foi alvo de revisão histórica e poética da artista, cuja construção teve início durante o governo de Médici (1969-1974), nunca tendo sido concluída, ecoa o projeto nuclear brasileiro. Ambos são símbolos da nossa mais fiel entropia.


É importante notar a coragem implicada na escolha, por parte da artista, por um objeto muito distante da eloquência visual do projeto da Transamazônica. Em “Bombrasil” saem de cena as fotografias coloridas que captam a melancolia de um tempo pós-utópico, e se faz presente um labirinto discreto, preto e branco, potente em sua conjunção de palavras e imagens, sem espaço para qualquer alarde. No programa poético de Romy, ir até as ruínas de um tempo suspenso não significa paralisia ou niilismo. Aprendemos com Walter Benjamin a dimensão potente do que está fadado ao esquecimento. Recordar as bordas da história, acompanhando Benjamin, é narrar o presente a contrapelo, olhando uma outra vez mais para a face às vezes bárbara, às vezes melancólica, do nosso presente. Assim, “Bombrasil” surge como um gesto que caminha na contramão de uma sociedade da amnésia, cultivando, isto sim, um território fértil para que uma memória crítica floresça.


Luisa Duarte

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