ARTISTA

Rodrigo Cunha

Rodrigo Cunha
  • Há na história da arte um ciclo de negações que tende a um retorno. Como escreveu Jean-François Lyotard, "Contra que espaço se batia Cézanne? O dos impressionistas. Contra que objeto, Picasso e Braque? O de Cézanne. Com que pressupostos rompe Duchamp em 1912? Que é preciso fazer um quadro, mesmo cubista. E Buren interroga esse outro pressuposto que considera manter-se intacto na obra de Duchamp: o lugar da presentação da obra." Assim, desse acúmulo sucessivo de camadas de negação, Lyotard conclui que uma obra não pode tornar-se moderna se não for primeiro pós-moderna. Porque ser moderno é, em essência, ruptura, superação (do próprio moderno). O que Lyotard sugere é uma sequência de modernidades, uma sucessão de rupturas que, pela definição de moderno, "estão" pós-modernas durante algum tempo, mas terminam "sendo" modernas, quando empurradas pela próxima ruptura. Assim, a segunda conclusão de Lyotard é que o pós-modernismo não é o modernismo no final, mas justamente, "é o modernismo em estado nascente e este estado é recorrente." Uma sucessão de rupturas, num mundo finito, tende a retornar a algum ponto já conhecido. Condenados ao moderno estamos e somos, como já disse Mario Pedrosa.

    Esta constatação, de que rupturas não caminham em linha reta, nem sempre em frente, muito menos em sentido ascendente, é clara na pintura de Rodrigo Cunha. Voltar ao velho óleo sobre tela é uma das curvas que o pintor de Florianópolis faz no tempo. O espaço de suas composições beneficia-se de heranças modernas e apresenta distorções na perspetiva clássica que, para nosso olhar pós-Cezanne, passa quase como perfeitamente ilusionista. Quem se demora na frente dessas telas pequenas percebe que a parede emenda com o chão, fazendo com que as figuras, sentadas ou em pé, pareçam escorrer para fora da tela. Se eu desviar meu olhar, quando voltar à tela, as figuras já terão formado (futuro anterior) uma poça no chão do espaço real.

    Os detalhes das roupas e dos objetos que as circundam são precisos, como em pinturas da Neue Sachlichkeit, especialmente as de Otto Dix, porém aqui as figuras equilibram-se entre a modernidade e a paródia pós-moderna. Talvez seja nesse espaço que ameaçam escorrer, tamanha a continuidade de ambos, como a continuidade entre parede e chão. Quando eu olhar o pós-moderno, ele já terá se transformado (futuro anterior) em moderno.

    Os rostos parecem, após um exame cuidadoso, caricaturais e muito parecidos entre si, como se fizessem parte de uma mesma família, de algum outro tempo. Os ambientes são retrô, nem bem contemporâneos nem bem antiquados. Uma mulher com sapatos brutos veste um tomara-que-caia curtíssimo, e está sentada em (ou escorrendo de) um sofá rebuscado. Essa atitude de espera é essencial no entendimento das pinturas de Rodrigo Cunha. Uma comparação entre a mulher do tomara-que-caia e o retrato que Otto Dix fez da jornalista Sylvia von Harden, em 1926, esclarece essa questão: na tela de Dix, a mulher está bebendo, fumando, apresentando-se como a nova mulher alemã, integrante de um círculo intelectual. Ela está no tempo presente, sendo, vivendo, naquele canto de um bar. A mulher de Rodrigo Cunha ainda não é, ela apenas está, em estado de espera, num tempo que não é o presente mas sim um instante antes do futuro e um instante depois do passado, que ainda não assentou em presente. Na parede cinza, atrás do sofá, vê-se uma nesga de paisagem acadêmica, um resto de uma tela que já passou, emoldurada com rococós dourados, e que entra em choque temporal com a meia soquete da moça. Ela encara o espectador, preparada para 15 minutos de fama que um dia terá tido. Terá tido. Tudo aqui é o que na língua francesa chama-se futuro anterior. O porvir e o já acontecido, o "terá tido". Então, na soma de dois vetores de tempo, um para frente, outro para trás, os personagens ficam parados, à espera do futuro, que remeterá ao tempo passado. O homem de pernas muito finas está deslocado para direita da tela, numa composição que privilegia o vazio da parede azulada e ornada numa época anterior. Pela mão, o homem segura uma criança que ainda não entrou na composição, está à direita, no porvir da tela. E ele nos encara, esperando. Em outra pintura, uma mulher loira, um tanto gasta, veste aquele mesmo tomara-que-caia curtíssimo, revivendo seus 20 anos enquanto espera, parada, olhando para o porvir.

    Mais do que clichês sobre a pós-modernidade (o vazio existencial, o hedonismo, o acúmulo, o consumismo), o que as telas de Rodrigo Cunha apresentam é a expectativa do que virá de mãos dadas com o moderno. Não é modernismo tardio, é espera por aquilo que terá sido o pós-moderno, por algum tempo.

     

    *Jean-François Lyotard. "Resposta à questão: o que é o pós-moderno". Arte em Revista no. 7, São Paulo, CEAC – Centro de Estudos de Arte Contemporânea, 1983.

    Paula Braga, 2013. 

  • RODRIGO CUNHA
    Florianópolis, Brasil [Brazil], 1976
    Vive e trabalha em [lives and works in] Florianópolis, Brasil [Brazil]

    Formação [Education]

    2002
    .Pintura e Gravura [Painting and Engraving]. Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil [Brazil]

    Exposições Individuais [Solo Exhibitions]

    2015
    .Jardim Cético. Zipper Galeria, São Paulo, Brasil [Brazil]

    2012
    .O Mundo de Dentro. Zipper Galeria, São Paulo, Brasil [Brazil]

    2009
    .Galeria Múltipla de Arte, São Paulo, Brasil [Brazil]

    2008
    .Diálogos com Desterro. Museu Vitor Meirelles, Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .Espaço Cultural Badesc, Florianópolis, Brasil [Brazil]

    2006
    .Museu de Arte de Blumenau, Brasil [Brazil]

    2005
    .Galeria de Arte da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .Galeria Municipal de Florianópolis, Brasil [Brazil]

    2004
    .Exuberante Passividade. SESC Santa Catarina, Brasil [Brazil]

    2003
    .Exuberante Passividade. Museu de Arte de Santa Catarina, Brasil [Brazil]
    .Casa de Cultura Dide Brandão, Itajaí, Brasil [Brazil]

    2002
    .Galeria de Arte da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil [Brazil]

    1999
    .Centro Cultural Bento Silvério, Florianópolis, Brasil [Brazil]

    Exposições Coletivas [Group Exhibitions]

    2014
    .A Figura Humana. Caixa Cultural Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil] 2013
    .É o que há. Fundação Cultural Badesco, Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .13º Salão Nacional de Artes de Itajaí. Itajaí, Brasil [Brazil] .Um Novo Horizonte. Galeria Tina Zappoli, Porto Alegre, Brasil [Brazil]

    2011
    .Como o Tempo Passa Quando a Gente se Diverte. Casa Triângulo, São Paulo, Brasil [Brazil]

    2009
    .Artistas Brasileiros: Novos Talentos. Salão Branco do Congresso Nacional, Brasília, Brasil [Brazil]

    2008
    .Caminhos da Pintura Contemporânea e a Figuração. Galeria Floripa Loft, Florianópolis, Brasil [Brazil]

    2007
    .Pretexto. SESC Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .Rótulos. Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .Espaço Cultural Arquipélago, Florianópolis, Brasil [Brazil]

    2006
    .Galeria de Arte Contemporânea Ybakatu, Curitiba, Brasil [Brazil]

    2005
    .Rumos Artes Visuais. Instituto Itaú Cultural, São Paulo, Brasil [Brazil]

    2004
    .Acervo do MASC: Pintura Segundo a Seqüência do Alfabeto. Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil [Brazil]

    2001
    .Salão dos Novos Valores. Fundação Franklin Cascaes, Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .X Salão Municipal de Joinville, Brasil [Brazil]

    Coleções Públicas [Public Collections]

    .Fundação Cultural Badesc, Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .Galeria de Arte da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil [Brazil]
    .SESC Santa Catarina, Brasil [Brazil]

  • exposições

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