SELVA-MATA

Fábio Baroli

11/May/2019 – 08/Jun/2019

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Press Release

À primeira vista, a instalação de pinturas de Fábio Baroli na Zipper Galeria pode parecer uma abordagem naturalista de um artista que é reconhecido pela representação de cenas cotidianas do interior brasileiro e da figura humana. Na nova série de trabalhos, ele toma como ponto de partida as paisagens características da Mata Atlântica, visando uma construção poética a partir de referências de vegetações nativas do Brasil. Porém, trata-se apenas do ponto de partida: em “SELVA-MATA” – a primeira individual dele na galeria – Fábio Baroli usa a pintura como método para refletir sobre a ação antrópica no meio ambiente. Com texto crítico de Mario Gioia, a exposição inaugura no dia 11 de maio, às 12h.


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O artista cria uma paisagem inventada no andar superior da Zipper, um site specific que expande a pintura das telas às paredes do espaço expositivo. “O intuito é estabelecer a intercomunicação, por meio da arte, entre as complexas e sensíveis relações do ser humano e suas ocupações, em seu amplo sentido de posse, ofício e lugar”, observa.


Como é próprio no trabalho do artista, as pinturas revelam marcas de edição (montagens, colagens, intervenções e interrupções) que aludem à característica da editoração gráfica, revelando uma das leituras do artista em relação à ação antrópica sobre o meio natural. A escolha do tema na nova série se deu da perspectiva da redução dos espaços naturais, tendo como paradigma a drástica diminuição das áreas de Mata Atlântica ocorridas desde a colonização europeia até a atualidade. “No fundo, é uma paisagem humana, uma narrativa não linear. O olhar pode partir de qualquer ponto da instalação”, comenta.


A exposição “SELVA-MATA” fica em cartaz até 8 de junho.


Sobre o artista
Descendente do ramo genealógico iniciado no Brasil por Almeida Júnior (1850-1899), o trabalho do artista Fábio Baroli (Uberaba, 1981; vive e trabalha em São Paulo) expressa uma visão de mundo ancorada na vivência interiorana e no imaginário regional. Gêneros tradicionais — como retrato, paisagem e natureza-morta — se misturam à cenas do cotidiano do artista em pinturas com gestos bruscos e marcantes, em trabalhos que revelam marcas de edição (montagens, colagens e intervenções) características de programas digitais. A apropriação e a referência da imagem fotográfica fazem parte do processo do artista. Vencedor dos prêmios Funarte de Arte Contemporânea (2011) e Marcantonio Vilaça (2013), o trabalho de Fábio Baroli consta em coleções como MAM Rio, Museu de Arte do Rio e Museu Nacional de Brasília. Principais exposições individuais: Goliath, MuseumsQuatier, Viena (2017); Deitei pra repousar e ele mexeu comigo, CCBB Brasília (2016); Muito pelo ao contrário, CCBNB, Fortaleza (2014); Vendeta: a Intifada, Funarte, Recife (2013). Principais exposições coletivas: Contraponto, Museu Nacional de Brasília (2017); É tudo nosso, Casa da Cultura da América Latina, Brasília (2017); Vértices – Coleção Sérgio Carvalho, Centro Cultural Correios, Braslília, Rio de Janeiro e São Paulo (2015/2016); Prêmio Aquisições Marcantonio Vilaça, Museu de Arte Moderna MAM Rio, Rio de Janeiro (2013).


Texto crítico: Mario Gioia


Curador independente, Mario Gioia (São Paulo, 1974) é graduado pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). Integrou o grupo de críticos do Paço das Artes desde 2011, instituição na qual fez o acompanhamento crítico de Luz Vermelha (2015), de Fabio Flaks, Black Market (2012), de Paulo Almeida, e A Riscar (2011), de Daniela Seixas. Foi crítico convidado de 2013 a 2015 do Programa de Exposições do CCSP (Centro Cultural São Paulo) e fez, na mesma instituição, parte do grupo de críticos do Programa de Fotografia 2012. Em 2015, no CCSP, fez a curadoria de Ter lugar para ser, coletiva com 12 artistas sobre as relações entre arquitetura e artes visuais. Já fez a curadoria de exposições em cidades como Brasília (Decifrações, Espaço Ecco, 2014), Porto Alegre (Ao Sul, Paisagens, Bolsa de Arte, 2013), Salvador (Fragmentos de um discurso pictórico, Roberto Alban Galeria, 2017) e Rio de Janeiro (Arcádia, CGaleria, 2016), entre outras. Em 2016, a mostra Topofilias, com sua curadoria, no Margs (Museu de Arte do Rio Grande do Sul), em Porto Alegre, foi contemplada com o 10º Prêmio Açorianos, categoria desenho. É colaborador de periódicos de artes como Select e foi repórter e redator de artes visuais e arquitetura da Folha de S.Paulo de 2005 a 2009. De 2011 a 2016, coordenou o projeto Zip'Up, na Zipper Galeria, destinado à exibição de novos artistas e projetos inéditos. Na feira ArtLima 2017 (Peru), assinou a curadoria da seção especial CAP Brasil, intitulada Sul-Sur, e fez o texto crítico de Territórios Forjados (Sketch Galería, 2016), em Bogotá (Colômbia). Em 2018, assinou a seção curatorial dedicada ao Brasil na feira Pinta (Miami, EUA) e a curadoria de Esquinas que me atravessam, de Rodrigo Sassi (CCBB-SP).

Critical essay

Green vibrato


Selva-Mata, the first solo show by the artist Fábio Baroli, from Minas Gerais, at the Zipper Gallery, points to a new moment in his body of work, when the human figure gives way to nature; not without exuberance, attractively observed, in landscapes made with delicacy – but even though constructed; they are not truthful, or exact. At the same time, the work unfolds some points of inflexion from previous series, such as the creation of large pictorial environments, in which the polyptych is central within the exhibition space and expands through the site itself via elements of painting, as well as by more evident procedures such as erasure. And the concept economic and socio-political aspects are present, among other scopes, in order to ground the exhibition, however, this time the work seems to surreptitiously yield to more robust investigations of art making – such as oil painting, in this case.


Another important aspect of Baroli's production remains: displacement. The artist was born in Uberaba, Triângulo Mineiro, was educated in Brasilia, spent a few years in Rio de Janeiro, returned to his native city and today is settled in São Paulo. This initial exhibition of the "São Paulo phase" reverberates some echoes, since it is not long that the artist lives in Pinheiros (west of SP), however, an interesting fact emerges in the canvasses of the ambient displayed in the Zip'Up Room. The green seduction of the Atlantic Forest was portrayed from visits to the Cantareira mountain range, in the extreme north of the city; an important ecosystem that protects much of the water springs essential to the city. In addition to the Cantareira, sketches were collected from the Tijuca forest in Rio.


The polyptych Selva-Mata, title of the series and of the show, also portrays typical cerrado [savannah] vegetation – the photographic language grounds the pictorial compositions – from the vicinity of Uberaba, a fertile region of soybeans and cattle, among other products. In other words, short plants and shrubs, with a more sparse configuration and much more open than the existing one in the Atlantic Forest biome, make the cerrado appear as the enemy of agricultural productivity, according to an economistic logic, for resembling weeds.


It is important to remember that the cerrado was once more decisive and present in the greenery of SP – not surprisingly, parts of the city were known as the Fields of Piratininga at the beginning of the colonization period –, and this condition caught the attention of the gaze and visual practice of artists such as Daniel Caballero. In the work of this São Paulo artist, one finds proximity to the tactics of the "artist-traveller" and the expeditionary, in order to discover, document, collect and present the fragile presence of this flora from the gigantic metropolitan area of the city of São Paulo. In this sense, through very different investigations and approaches, he and Baroli can be radiographed within the altermodernity proposed by Nicolas Bourriaud in the essential The Radicant. "The representation of nonstatic spaces involves the construction of new codes that are capable of capturing the dominant figures of our imaginary universe (the expedition, wandering, and displacement), an operation that consists in doing more than merely adding a vector of speed to frozen landscapes" writes the French thinker.


In Deitei para repousar e ele mexeu comigo, a solo show presented at the CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) in Brasilia 2015, Baroli already presented a polyptych that dealt with the landscape. However, Pra lá de dois pé-de-gabiroba showed a panorama that was far more affected by human presence, where leafy trees and a sky of lively blue seemed to be bruised to exhaustion, with fences, roads and livestock marking indelibly the early primeval vegetation. A bovine carcass and a termite mound helped in the melancholy configuration, with paint inserts in the wall completing figures, and canvasses of different scales spread throughout the white cube.


Now, in Selva-Mata, the human threat is lurking around, nevertheless, it remains in the extra-field. The vigour of the green tone determines that pictorial elements must be highlighted in different ways. The artist also uses Italian gesso as the base for the surface of the paintings, so that the chalk mixture in the background may enhance the colour of the paintings made with dense oils. In some places, the walls of the room were painted medium green, fusing media with square and rectangular volumes placed in the exhibition space. As "content", the more elongated and thin shrubs, typical of the cerrado, are very curious as a strong punctuation to the green foliage, typical of the humid and closed environments of the Atlantic Forest, whose light (which shines through to make explicit the surface of the canvas) has smaller moments, but relevant so that the constructed scenario may be visualized. A pink appears almost silently between the green, verging less towards the artificial and creating "rips" resembling nocturnal landscapes (they are not, but the theme was dear to several artists and, among more recent manifestations, a series by the São Paulo artist Rodrigo Andrade can be cited). And the same pink hue dominates one of the walls of the room, generating a kind of negative of the landscapes installed against it, in a specular relation catalysed by attributes typical to painting.


Finally, this new phase by Fábio Baroli inscribes him alongside a range of artists of varied origins, means, and strategies, all opting for a less solar (and therefore more pessimistic) gaze within the country's visual history. The artist's collage seems to minimize the sublime that would leap from the flatter representation of this powerful nature – since the construction of a scenario that does not exist as we see it in the moment, with his mixture of different biomes -, endowing, then, a real that is less alive than the artistically created. Thus, his production is close to the deeply solitary engravings of the panoramas of SP by Evandro Carlos Jardim; of the suburbs in minor tone in the paintings by the members of the Santa Helena group; and of nature in colours and inside-out vegetation of the "foreign" pictorial in Miguel Bakun (1909-1963) and Alfredo Andersen (1860-1935).


Mario Gioia


1 BOURRIAUD, Nicolas, The Radicant , Sternberg Press, 2009. ISBN 978-1-933128-42-9. Translated by James Gussen and Lili Porten.

Catalog